quarta-feira, 30 de março de 2022

História de Garanhuns

Internato do Colégio Diocesano de Garanhuns - O internato é um dos capítulos de muito realce da história do  Colégio. Aliado a outros fatores, sobretudo à disciplina e simplicidade do ambiente, sem ostentação e num plano de igualdade para todos, chegou a manter uma média de 160 alunos, procedentes da várias regiões do Brasil e de  orientações familiares as mais díspares.

Não era por acaso que famílias de todas as partes do país mandavam seus filhos para o internato do Diocesano. Com certeza, não iam apenas cobiçados pelo clima maravilhoso da cidade e seus lençóis inesgotáveis de água mineral. Não raro, buscavam soluções para desvios de  condutas.

O Colégio jamais deixou de receber esse ou aquele menino-problema. As portas estavam sempre abertas para todos, dispensando-se o mesmo tratamento, sem privilégios, por mais destacado que fosse o berço econômico ou político de qualquer um deles.

Alunos internos e externos estudavam nas mesmas salas e com os  mesmos professores. Não havia dualidade de tratamento. Jornadas e tarefas pedagógicas, as mesmas para todos. Havia convivência amistosa e até muitas amizades entre os jovens alunos. Prevalecia o companheirismo nas relações do  dia-a-dia.

Ora de recolher, ora do banho e da higiene pessoal, das refeições, do recreio, tudo era muito rígido. Não havia moleza para ninguém. Como se não bastasse a mão de cada professor, do censor, eis que, inesperadamente, lá estava o Padre, braços cruzados, ereto, à janela de qualquer sala de aula nos intervalos, quando era natural que os meninos ficassem mais descontraídos; os mais salientes praticando traquinices. Quando percebiam a presença do Padre mergulhavam todos em silêncio e no mais profundo respeito àquela presença, que se fazia ouvir sem palavras.

Depois das intensas atividades do dia, antes de dormir, os internos ainda assistiam atentamente às pregações cívicas do Mons. Adelmar:  suas frases, pausadas e bem dosadas de lições de moral e de ética, ficavam impregnadas na mente de cada um, lenitivo e bússola vida afora. Até os mais indiferentes e equidistantes que lá chegavam, terminavam todos reverentes às pregações, conforme o testemunho de cada um.

O Colégio não tinha funcionários para manutenção do seu internato. Apesar de ter sempre uma média de cento e sessenta jovens, na faixa de 11 e 20 anos de idade, o padre não ia muito longe para garantir a disciplina. Depois de observar o caráter e a capacidade de cada pupilo, nomeava um deles para a  tarefa de "censor".

Assim foi um Levino Epaminondas, Fernando Castelão, José Ávila, um Ivaldo Dourado, dentre os "censores" que marcaram época. Para a missão de  "censor", o padre quase sempre, preferia os mais pobres, aqueles cuja família não tinha condições para o pagamento de suas despesas pessoas. Ao "censor" nomeado o Colégio retribuía dispensando-lhe os pagamentos de todas as taxas e mensalidades.

De 1938 para cá, o Diocesano manteve o seguinte quadro de internos: 1938 - 65 alunos; 1939 - 99; 1940 - 110; 1941 - 121; 1942 - 121; 1943 - 118; 1944 - 123; 1945 - 127; 1946 - 127; 1947 - 119; 1948 - 117; 1949 - 119; 1950 - 127; 1951 - 154; 1952 - 174; 1953 - 193; 1954 - 184; 1955 - 184; 1956 - 184; 1957 - 180; 1958 - 180; 1959 - 182; 1960 - 192; 1961 - 222; 1962 - 224; 1963 - 240; 1964 - 175; 1965 - 223; 1966 - 211; 1967 - 211; 1968 - 193; 1969 - 212; 1970 - 130; 1971 - 203; 1972 - 127; 1973 - 136; 1974 - 152; 1975 - 151; 1976 - 135; 1977 - 160; 1978 - 168; 1979 - 163; 1980 - 135; 1981 - 158; 1982 - 156; 1983 - 148; 1984 - 143; 1985 - 132; 1986 - 118; 1987 - 89; 1988 - 91; 1989 - 44; 1990 - 11; 1991 - 23; 1992 - 15; 1993 - 12; 1994 - 14.

Observa-se um crescente na década de 60, coincidentemente a década da "jovem-guarda", os anos dourados da música popular brasileira, movimentos de protesto e rebeldia da juventude em todo o mundo, as transformações sociais. 

Monsenhor lembra o grupo de alunos internos de 1938, quando assume a direção do Colégio. Tinha o nome por nome na sua agenda pessoal. 

Os alunos internos de 1938: José Pimentel, Antonio Gondim, Carlos Magno Oliveira, Agnaldo Costa, Vantério Alexandre, José David Arruda, Isaac Andrade, Vanoldo Vasconcelos, Humberto Costa, Jarciro Tenório, Antonio Tenório Filho, Antonio Barbosa Filho, José Antonio Almeida, Wilson Barros Lins, Aníbal Victor, Ataíde Pinto, José Tenório Luna, Joel Vital Santos, Abelardo Redondo, Antonio Lira Souza, José Vieira Barros, José Alves Santana, Enedino Santana, Vélio Valença, Creodon Granja, Milton Lins, Ranuldo Macedo, Evilário Canuto, Arani Maia, Vicente Crespo, Agrário Ramos, Natalício Valença, Valdomiro Freire, Gil Beltrão, Raimundo Carvalho, Eraldo Damas, Lindolfo Lira, Severino Teixeira, Clóvis Teixeira, Manuel Teixeira, Manuel Lustosa, Clarindo Medeiros, Hildo Valença, José Nunes Almeida, Dioclécio Araújo, José Pontes, Lídio Santos, Jorge Lira, José Lopes de Oliveira, Clovis Carapeba, João Domingos, José Callou, João Caldas, Leone Piancor, Jades Tenório, José Maria Miranda, Almir Sampaio, Manuel Vasconcelos, José Teixeira, José Tenório, Cícero Tenório, Jorge Tenório, José Amaro Brasileiro e Eliseu Araújo.

Um ex-aluno interno, publicitário e radioator muito conhecido Fernando Castelão, recordava com muita saudade, o seu tempo de Diocesano. Seus pais deixaram Garanhuns para morar no recife. Ele, adolescente, fins dos anos 30, a pedido do Padre, que mantinha boas relações com seus pais, fica estudando interno no Diocesano.

Um sábado, Castelão foge do internato e vai assistir um filme no cinema Jardim no centro da cidade. Na volta, tira os sapatos, pula o muro lateral e vai mansamente sem fazer o menor barulho. Ao final do corredor, é surpreendido com o padre, que estava à sua espera, braços cruzados. Onde estava, Castelão? No cinema, padre. Com ordem de quem? De ninguém - responde com  firmeza e honestidade.

O padre, que sempre gostou da franqueza, manda que o jovem Castelão se recolha sem acordar os seus colegas. Ficou observando-o e não tardou para convidá-lo a assumir a função de "censor" do internato. 

Outro interno que chegou  a "censor" foi o médico, Ivaldo Rodrigues Dourado. Muito rigoroso, não admitia o menor barulho quando os meninos seguiam em filas indianas para o dormitório. O piso para o dormitório, era de madeira e o barulho inevitável com tanta gente passando ao mesmo tempo. Mas o menino Ivaldo não admitia e chamava sempre a atenção dos coleguinhas. Do outro lado, o padre a tudo ouvia e até achava graça no rigor do jovem "censor".

Sebastião Jacobina, de tradicional família das Correntes, titular do 2º Cartório de Registro de Garanhuns, menino veio estudar no Diocesano, início da década de 1930. A condição de aluno-interno não lhe era agradável. De tantas  fugas, ganhou o apelido de "o interno fujão". Certa feita, seu pai o traz de volta após uma dessas fugas. São recebidos pela direção no salão de visitas. Enquanto o seu pai dialoga com a direção, pedindo naturalmente as desculpas, o menino Sebastião Jacobina consegue driblar a todos e foge incontinenti por uma janela lateral do velho casarão da Praça da Bandeira. Um verdadeiro recorde, daí ter  ficado conhecido como o "fujão".

Fonte: Texto e fotos; O Diocesano de Garanhuns e Monsenhor Adelmar (de corpo e alma) | Manoel Neto Teixeira | Ano 1994.

Fotos: (1) - Alunos internos no refeitório, (2) - Mons. Adelmar esperando a chegada dos meninos no refeitório.

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