terça-feira, 29 de março de 2022

Refazendo Falas e Estereótipos

Por Luciano Pontes* 

A roda-gigante do mundo gira incessantemente, e, automatizados, é comum seguirmos a rota sem olhar para trás ou mesmo olhar para frente e refazer caminhos. Olhar para a gira do mundo pela literatura é uma forma de reconhecer nossas heranças e seus contextos, além de lançar um olhar reflexivo sobre o que poderá vir adiante ou como a atual literatura para as infâncias vem atuando numa reparação histórica.

Por isso, a 6ª edição do FILIG busca refazer o caminho dessas narrativas seguindo pelas trilhas do “muito além das fadas”. Percebendo as raízes e origens orientais e célticas desses contos alusivos às fadas, que nem sempre são as protagonistas, chegamos até aqui numa trilogia curatorial temática que perpassou a literatura indígena e africana e agora os contos maravilhosos e de fadas.

Esses enredos e tramas dos contos populares no mundo se misturam em linhas infinitas de saberes e mutações. Condicionadas pela cultura e seus modos de pensar e existir no mundo, é comum encontrarmos estruturas semelhantes em diferentes partes do mundo com títulos ou personagens reinventados. Essas estruturas, aparentemente simples, revelam o poder da narrativa que surge antes da escrita, uma tecnologia ancestral maior da língua falada e falante, como bem diferencia o filósofo Merleau-Ponty. O autor subdivide a fala em dois tipos: fala falada e fala falante. Na fala falada, os símbolos são conhecidos, pois “a fala falada desfruta as significações disponíveis como a uma fortuna obtida”; por outro lado, a fala falante produz significados com “intenção significativa em estado nascente” (MERLEAU-PONTY, 1999, pp. 266-267). Para uma análise atual dos contos clássicos, é possível pensar pela fala falante, em que a significação busca intenções que possibilitam abertura, releituras e reescritas ao ler falas e descrições que reforçam estereótipos negativos relacionados ao feminino e a outras tantas questões sociais.

A presença da mulher nos contos maravilhosos e de fadas é bem significativa. Algumas histórias reforçam pensamentos arcaicos e já intoleráveis da sociedade. Há uma necessidade urgente de uma reparação, e não discordo disso, mas é preciso olhar para esses contos também pelo seu valor simbólico. Não reforço o aspecto psicológico tão propagado pelos estudiosos a partir do livro do Bruno Bettelheim. Mas convido para refazer esse caminho simbólico pela filosofia e sociologia, que vão trazer revelações novas para essas construções orais arqueológicas e ancestrais da vida social.

A herança do conto oral é protagonizada por muitas mulheres aparentemente frágeis e subordinadas, mas essas foram as histórias que foram mais propagadas pela cultura vigente e ganharam mais notoriedade nas grandes telas. Existem e sempre existiram, porém, outras histórias sobre mulheres belas, guerreiras e fortes. Foram abafadas historicamente pela cultura do acobertamento. De alguma forma, acreditava-se que esses contos também ajudavam na educação e era preciso manter o que se supunha ser uma forma de domesticação humana pela ficção.

A presença feminina também foi abafada historicamente pela recolha desses contos orais no mundo. A francesa Madame D’Aulnoy já cultuava e recolhia contos populares na aristocracia do século XVII. A pesquisadora Susana Ventura traz nomes como Madame de Villeneuve e Madame de Beaumont, protagonistas dessa memória de boca em boca que ganhou os livros impressos e versões cinematográficas, mas que ficaram historicamente presas no “espelho” da vaidade do mundo masculino. 

Muitas mulheres escritoras também vão se aprofundar nesse mundo simbólico e fascinante dos contos maravilhosos e de fadas, como as brasileiras Marina Colasanti, Rosana Rios, Heloisa Prieto e Katia Canton. Elas vão refazer os estereótipos e as falas, cuidando da trama com muita liberdade criativa e respeito poético em suas criações. As escritoras estrangeiras Angela Carter e Ethel Jonhston vão também ampliar olhares criativos nessas releituras e reescritas reparadoras da presença e permanência da figura feminina nos contos de fadas.

A sociedade vive sob as ameaças constantes do mundo poético porque esses contos parecem conter certos enigmas. É preciso uma leitura atenta e sensível mesmo para as narrativas mais subjugadas, tidas como bobas. Aterrorizados pelo medo do entendimento, vimos nos últimos quatro anos no mundo muitas iniciativas individuais de punição para livros que trazem narrativas “perturbadoras”.

A fogueira do esquecimento continua mantendo sua chama. Sempre pronta para atacar a literatura, ela chega embasada por fundamentações religiosas e culturais. No fundo, só revela nossa intolerância à diversidade e inabilidade para a leitura. Diferentemente do que se lê em A Triste História de Eredegalda recolhida por Câmara Cascudo e recontada por José Mauro Brant, obra censurada e acusada de incentivar a cultura do incesto, a criança, protagonista da trama, diz “não” à autoridade do pai e do homem, recusando-se a prosseguir com seu plano de tê-la como rainha. A criança na história diz “não” e se nega a continuar, mas sofre as consequências da sua decisão. Ela verbaliza sua negação, e isso é mais reparador do que toda a dor e tristeza dessa história que nos faz pensar e sublimar como pássaros encantados.

É preciso repensar e modificar as formas de aprender e apreender o mundo, como assim fazem constantemente os bebês. Prefiro seguir apreendendo para aprender, garantindo que a autonomia siga por caminhos infinitos e afetivos.

*Escritor e ilustrador especialista em Literatura Infantil e Juvenil e curador do FILIG.

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