domingo, 10 de abril de 2022

A Rui Barbosa

Neide de Oliveira Tavares*

Essa avenida faz jus ao nome que recebeu. É uma  das maiores e mais bonitas de Garanhuns. Sempre fez parte do meu percurso cotidiano, pois é caminho para tantos outros que percorri. No início da rua, logo após a  antiga sede do Esporte Clube, era para obrigatória na minha infância, a casa do seu João Gomes, onde depois funcionou a garagem da Jotude. Ali, numa casa pequenina, em meio ao grande terreno pertencente a João Tude, visitávamos D. Maria, que sempre à tardinha, quando não engomava as roupas do marido, fazia tapiocas para o jantar. Saboreávamos então, as tapiocas quentinhas. Com aquela família morava a minha tia avó, a quem costumava ir ver, e  que sempre perguntava o que eu tinha feito até então.

No outro lado, na esquina, um belíssimo prédio que  sempre me chamava a atenção, o Seminário, cheio de  seminaristas, que de vez em quando saíam em forma, em  direção à Catedral. Antes do Tavares Correia, quase em  frente, havia a casa de Dr. Lessa, muito graciosa, que depois pertenceu também à Jotude. O Tavares Correia era local proibido. Não tínhamos o que fazer ali. De início era  Sanatório, e não estávamos doentes. Depois, um hotel muito chique, e não éramos turistas. Portanto, era só para admirar.

Quando bem menina, havia uma casa em construção: a que hoje pertence ao Dr. Tinoco. Ao passar em frente à mesma, levados  pela mão da minha avó, eu e meu irmão, ela  gostava de dizer, creio que em tom de brincadeiras, que  a casa lhe pertencia. Ficamos muito tempo com aquela ilusão. Passados muitos anos, ela já falecida, perguntei a minha mãe o porquê daquela afirmação: descobri que o terreno, fizera parte da propriedade da sua genitora, minha bisavó, e ela nunca se conformara com o modo como fora vendido por  um irmão mais velho, que administrava tudo sozinho. Hoje seria ilegal. Mas a casa quem construiu foi o senhor Fausto Lemos, para nela morar. Voltando à Rui Barbosa, não sei quantas vezes passei por ali a pé, na minha infância e adolescência, para a casa daquela mesma avó, que morava da Djalma Dutra. A avenida parecia muito longa, e às vezes eu me  cansava bastante. Havia umas casas antigas, principalmente nas esquinas, como a do seu Leopoldino Cardoso, que permanece quase do mesmo jeito. A casa onde hoje se situa o prédio do Garanhuns Palace Hotel, era muito bonita, pintada de azul e pertencia a seu Adalberto Souto. Lá adiante, a casa dos Eucaliptos, enorme com lindos portões de ferro, pertencia aos Lundgren, e (que pena!) eu sempre a associo à enxaqueca, porque era o que eu sentia quando acendiam o  fogo nas folhas mortas de eucalipto, geralmente no meio da  tarde, e me encontrava na casa da minha avó. Para mim, aquele perfume doce e forte, exalado das folhas queimadas, tornava-se um tormento. Aquela casa era desabitada. Nunca vi ninguém naquela mansão, a não ser o caseiro.

Logo após, em meio a tantas outras, vinha a casa do  seu Jorge Branco, patrão do meu pai, e que costumava visitar com minha mãe, pelo menos uma vez por ano, para cumprimentar dona Estelita, que nos recebia com alegria. Entrávamos pela lateral, costume da casa, e ficávamos na sua  espaçosa sala de jantar, eu toda inibida, olhando o vaivém de tantas moças bonitas que ali residiam, entre filhas e irmãos, e a  conversa com a minha mãe se estendia pela tarde toda.

Mais ou menos naquela época, construíram a AGA, e a  avenida se expandiu também pela construção da Rádio Difusora, que foi inaugurada no início de 50, com grande festa e cantores trazidos do sul do País. Depois, havia os programas de auditório aos domingos, com valores também da região, dando oportunidade aos cantores que  surgiam. Lembro das irmãs Aciomã: Valéria e Gerusa, que  moravam na Rua do Recife e faziam sucesso cantando em  dueto, e depois foram para a Capital. Fui na adolescência,  ouvinte da Rádio Difusora, especialmente do programa apresentado por meu tio "Desfile das Cinco", cuja característica musical, "Abismo de Rosas", tocada por  Dilermando Reis, me deixava melancólica no final da tarde, pois o crepúsculo por si mesmo, já nos incita à melancolia. Com a sua voz de veludo, o tio José Cardoso, se derramava lendo poesias românticas, e tinha por isso uma legião de fãs.

Lá no alto da rua, no finzinho mesmo, havia uma  construção que parecia nunca ter fim. Era o prédio do antigo hotel no Monte Sinai, que até hoje a população identifica como Grande Hotel. Este era ponto de referência para o  garanhuense ausente e saudoso, que chegava pela BR 423, vindo de diversas regiões do Brasil. Esta, a primeira visão: o morro alto e o Grande Hotel ali em cima, sozinha, a anunciar a aproximação da cidade.

Depois, foram construindo casas na ladeira, que só  fizeram embelezar mais ainda a avenida, uma das  mais transitadas de Garanhuns, com seus jardins bem cuidados, encantando logo à entrada, o turista que vem desfrutar do clima acolhedor da cidade.

Em tempo: Rui Barbosa, o homenageado com o nome da avenida, creio que todos sabem, foi um dos homens mais  inteligentes que o Brasil já teve. Baiano de nascimento, escritor, grande orador, entre outras funções foi advogado, jornalista, senador e ministro. Chefiou a delegação brasileira à Segunda Conferência da paz em Haia, no ano de 1907, onde  adquiriu fama universal e foi apelidado de "Águia de Haia". Membro da Academia Brasileira de Letras teve o dia do seu  nascimento consagrado como "Dia da Cultura Nacional". Só falta comemorar.

*Neide de Oliveira Tavares é jornalista, escritora, historiadora, cronista e professora. Crônica transcrita do Livro "Lembranças de Garanhuns e outras mais". Ano 2014.

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