terça-feira, 26 de abril de 2022

As recomendações do Fórum Econômico Mundial para a recuperação do aprendizado pós-pandemia

Por Camila Karino*

O Fórum Econômico Mundial, em recente relatório O estado da crise global de educação: um caminho para a recuperação (The State of the Global Education Crisis: A Path to Recovery) – produzido em parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e Banco Mundial –, fez soar um alarme: esta geração de estudantes impactados pelo fechamento das escolas durante a pandemia corre o risco de perder US$ 17 trilhões em ganhos ao longo da vida, ou seja, 14% do Produto Interno Bruto (PIB) global. Sabemos que a saúde (física e mental) das crianças e dos adolescentes foi seriamente prejudicada nos últimos anos, mas, quando transformamos esse impacto em uma estimativa monetária, temos de modo um pouco mais concreto o real comprometimento do futuro causado pelas graves perdas de aprendizagem.

Em uma visão propositiva, escrevo este artigo para disseminar as recomendações que constam no relatório do Fórum Econômico Mundial, especialmente as voltadas para a criação de Programas de Recuperação da Aprendizagem. No documento, os especialistas defendem três linhas de ação cruciais: consolidação do currículo, extensão do tempo de instrução e melhoria da eficiência da aprendizagem.

Em consolidação do currículo, a recomendação é que os professores sejam auxiliados a priorizar as habilidades essenciais que os alunos perderam ou deixaram de adquirir no período de aulas a distância. Os objetivos de aprendizagem precisam ser reconsiderados, pois houve um aumento da heterogeneidade dentro da sala de aula. Essa medida garantirá que o currículo esteja alinhado aos níveis de aprendizado dos alunos. Como exemplo, os especialistas citam a Tanzânia, que consolidou o currículo para a primeira e segunda séries em 2015, reduzindo o número de disciplinas ensinadas e aumentando o tempo para garantir a aquisição de conhecimentos básicos de matemática e alfabetização.

Em termos práticos, duas ações são importantes para possibilitar a reorganização do currículo. A primeira é ter uma visibilidade do nível de desenvolvimento da turma. Para isso, deve-se considerar a realização de uma avaliação externa e diagnóstica, que deve ser desconectada do currículo da escola, ou seja, deve avaliar de acordo com as proficiências e os conhecimentos esperados para cada etapa da educação básica prevista nas matrizes do Saeb e do Enem, por exemplo. Esse distanciamento se faz necessário para a escola ter a real noção de como está a aprendizagem de seus estudantes, conforme está prevista nos documentos normativos da educação brasileira e não de acordo com o planejamento da instituição. A segunda ação, reflexiva e crítica, envolve elencar as habilidades essenciais para cada série e segmento escolar. Neste momento, querer contemplar tudo pode ser prejudicial, pois passar conteúdo de modo superficial acarretará prejuízos ainda maiores no médio e longo prazo. Os insumos dessas duas ações permitirão que a escola organize seu currículo para melhor atender seus (suas) estudantes.

No item extensão do tempo de instrução, o foco é ampliar o dia letivo, modificando o calendário acadêmico para prolongar esse tempo. No México, o Ministério de Educação Pública do país anunciou a prorrogação planejada para ajudar nesse processo de recuperação; em Madagascar, o governo ampliou um programa existente de dois meses de recuperação de verão para que estudantes possam se reintegrar à escola depois de deixarem o sistema.

Essa é uma recomendação também válida para nossa realidade. Temos exemplos no Brasil de programas voltados para estudantes que concluíram o Ensino Médio, mas querem ter formações continuadas de recuperação de aprendizagens. No nosso contexto, temos um desafio ainda maior, que é equilibrar essa orientação com as novas obrigações que a BNCC e os itinerários formativos do Ensino Médio trouxeram. A carga horária do segmento já deve ser alterada, e a determinação do documento normativo é clara: os itinerários devem ser momentos de aprofundamento no desenvolvimento de competências e habilidades da formação geral básica e não uma oportunidade para reforçar a preparação tradicional para vestibulares. A ampliação do tempo de instrução é interessante para o Ensino Médio, em especial para a terceira série, mas deve ser ponderada para os demais segmentos de ensino. Não vamos contornar os impactos em um curto espaço de tempo; e sobrecarregar os estudantes pode ter um efeito perverso, pois podemos aumentar o estresse, no momento em que precisam de muita acolhida socioemocional.

Em melhoria da eficiência da aprendizagem, o Fórum Econômico Mundial aponta a importância de apoiar os professores na aplicação de pedagogia estruturada e instrução direcionada. No Quênia, essa intervenção estruturada fez uso de guias para professores com planos de aula; a instrução direcionada – ou alinhamento da instrução ao nível de aprendizado dos estudantes – foi implementada, também, na Costa do Marfim. O relatório igualmente enfatiza a necessidade de termos financiamento adequado para investir em treinamento e em todo o processo imediato de aprendizagem. Essa é uma medida essencial, se os países quiserem evitar os danos de longo prazo à produtividade e inclusão dos cidadãos em formação.

Mais uma vez pensando na realidade brasileira, o desafio de melhorar a eficiência da aprendizagem é uma constante – basta olhar o distanciamento de nossos resultados no Pisa e em outras avaliações da educação básica, por exemplo. Quando pensamos em eficiência, logo vem à mente a retenção dos desperdícios em excedentes desnecessários. No caso do desenvolvimento educacional, podemos interpretar a eficiência da aprendizagem como aquele processo que realmente constrói o conhecimento do estudante; para isso, as escolas precisam passar por uma mudança de cultura e de mentalidade: o conteúdo pelo conteúdo do formato tradicional não é mais suficiente e não se conecta à realidade dos alunos – inclusive cito a BNCC mais uma vez, que traz uma nova perspectiva, a de uma formação integral dos estudantes alicerçada no desenvolvimento de habilidades e competências e não em decorar processos mecânicos que serão usados apenas nos dias dos vestibulares.

E, podemos ir além. Por eficiência também é possível interpretar a otimização do tempo do professor, que muitas vezes é repleto de tarefas burocráticas. Com essas horas poupadas, o professor tem condições de realmente refletir sobre suas práticas e encontrar alternativas mais assertivas para promover a compreensão, a construção do conhecimento e o desenvolvimento das habilidades e competências necessárias.

Para finalizar, ressalto uma conclusão bastante pertinente do relatório: podemos usar o momento de recuperação da aprendizagem como trampolim para uma trajetória de aceleração da educação. Costumo dizer que a escola está sentindo o peso do tempo; que ela precisa se transformar para atender às demandas educacionais do século XXI; e esse é o momento para seguir nesta direção. O contexto da pandemia só reforçou a necessidade de ações que já vinham sendo discutidas há anos para a melhoria do processo educativo. Segundo os especialistas ouvidos, acelerar a recuperação da aprendizagem traz benefícios para além do curto prazo: pode dar às crianças as bases necessárias para uma vida inteira pontuada pelo aprendizado, garantindo a formação integral preconizada pela BNCC; pode ajudar os países a aumentar a própria eficiência, a equidade e a resiliência da escolarização. E isso pode ser alcançado se os países aproveitarem os investimentos feitos e as lições aprendidas durante a crise. E, aqui, acrescento que a conexão de pais e responsáveis com a escola – que tivemos durante a pandemia, com as salas de aula migrando para dentro das casas – é essencial neste processo de reconstrução.

O Fórum Econômico Mundial indica seis medidas importantes para essa reconstrução.

#1 | Avaliar o aprendizado do aluno para que a instrução possa ser direcionada aos níveis de aprendizado e às necessidades específicas dos alunos.

 # 2 | Investir em oportunidades de aprendizagem digital para todos os alunos, garantindo que a tecnologia seja adequada ao propósito e focada no aprimoramento das interações humanas. Acrescento, aqui, a visão de tecnologia com intencionalidade pedagógica.

 # 3 | Reforçar o apoio que potencializa o papel dos pais, das famílias e comunidades na aprendizagem das crianças. Não podemos perder a conexão que conquistamos durante a pandemia!

 # 4 | Garantir que os professores sejam apoiados e tenham acesso a oportunidades de desenvolvimento profissional prático e de alta qualidade, guias de ensino e materiais de aprendizagem. Os educadores são peças-chave da reconstrução!

 # 5 | Aumentar a participação da educação na alocação do orçamento nacional de pacotes de estímulo e vinculá-la aos investimentos mencionados acima que podem acelerar o aprendizado.

# 6 | Investir na construção de evidências – especialmente em pesquisas de implementação –, para entender o que funciona e como dimensionar isso para o nível do sistema.

Como última recomendação, Fórum Econômico Mundial, UNICEF, Banco Mundial e UNESCO defendem que é o momento de mudar a resposta que damos à recuperação do aprendizado diante do impacto da crise sanitária. Devemos garantir ações e investimentos, aproveitando para lançarmos novas bases para a construção de sistemas educacionais mais eficientes, equitativos e resilientes. Essa é uma forma, inclusive, de prepararmos jovens e crianças para vencerem disrupções futuras.

*Camila Karino é diretora pedagógica da Geekie. Psicóloga, mestre e doutora pela Universidade de Brasília (UnB), estagiou na Universidade de New Brunswick (Canadá), onde estudou “Igualdade, equidade e eficácia do sistema educacional brasileiro”. Entre 2010 e 2014 foi coordenadora-geral de Instrumentos e Medidas do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), sendo responsável pelas principais avaliações da educação básica, tal como o Enem. Atualmente, é pesquisadora colaboradora do programa de pós-graduação do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da UnB.

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