segunda-feira, 25 de abril de 2022

Garanhuns Ano 100

Luiz Souto Dourado*

Se saíram outros números do Almanaque de Garanhuns, não sei ao certo. Mas os referentes a 1936 e 1937, tenho  certeza, pois os conservo na minha estante. Foi uma época de  intensa atividade cultural da cidade, como bem demonstra essa  publicação de iniciativa de Félix Rui Pereira, Ruber van der Linden e Miguel Jasseli. Vejam bem: circulavam um jornal diário, seus hebdomadários e quatro mensais. Funcionava uma Sociedade de Cultura trazendo artistas de renome como Carmem Gomes e Reis da Silva e figuras de porte internacional como Fritz Shilte e Frank Yunk. Havia anualmente uma feira de livros, promovida pela Livraria Helena, onde foram vendidos num ano 13.421 volumes, fato que levou a Juiz Edmundo Jordão e escrever, com certo exagero e muito bairrismo, que  "Garanhuns já lê pela metade do Brasil". Basta dizer que  essa livraria, além de editar o citado almanaque, ainda publicava o Bibliófilo, jornal de excelente nível. Tudo isso sem  falar do Grêmio Polimático, um permanente incentivo à atividade teatral, com apoio de Waldemar de Oliveira.

O Almanaque de Garanhuns não era apenas um informador econômico, um calendário de safras agrícolas, com mapas da região, secção de charadas, boletim das finanças municipais e com calendário profissional e turístico. Mais do que isso, era sobretudo uma divulgação literária das mais expressivas. Vamos encontrar nele a colaboração de Luís Jardim, Waldemar de Oliveira, Arthur maia, Ruber van der Linden, Nehemias Gueiros, Eurico Costa, Miguel Calmon, Gercino de Pontes, Edmundo Jordão, Nascisa Coelho, Alice Souto Dourado, Morse Lira, João Domingos da Fonseca, Francisco Sales Vila Nova, Luiz Schettini, Miguel Jasseli e tantos outros que na  época eram responsáveis pela vida intelectual da cidade.

Pouco antes do Almanaque de Garanhuns, surgia a Revista da Cidade, criada por Hibernon Wanderley e Luís Jardim. Uma revista corajosamente modernista, decidida a defender esse movimento ou essa revolução modernista como querem alguns, onde vamos encontrar Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo, Álvaro Moreira, Willy Levin, Altamiro Cunha, ao lado dos  garanhuenses Gumercindo de Abreu, Ivo Júnior e Virgílio Costa.

Pouco depois, em 1939, aparecia o Paládio, um jornal de estudantes que conseguiu o que somente a juventude ainda descomprometida e ainda sem preconceitos é capaz de conseguir: reunir os estudantes dos três principais colégios num trabalho, diremos mesmo ecumênico, pois os colégios professavam religiões diferentes e sabem todos o quanto isso pesa numa cidade do Interior.

Conservo ainda um número desse jornal e vejo entre os  seus dirigentes os nomes de Senyr Jatahy de Sampaio, Augusto Pinto, Epitácio Sales e Baby Lira. Leio nele a notícia do trabalho da Rainha dos Estudantes de Garanhuns de então, Debora Vasconcelos, para obter livros para os estudantes pobres. Debora, tanto quanto a sua colega federal Maria Amélia Carneiro Mendonça, criadora da Casa do Estudante do Brasil, preocupava-se com a sorte dos estudantes.

Essas três publicações de um passado já distante, atestam a capacidade realizadora dos editores do Almanaque de Garanhuns. Félix Rui Pereira, Ruber van der Linden e Miguel Jasseli; o espírito de independência da mocidade, que superou com o Paládio, de modo admirável, os preconceitos religiosos que pareciam tão arraigados na época; e sobretudo a mentalidade renovadora que Hibernon Wanderley e Luís Jardim mostraram na revista da Cidade, apoiando um movimento literário que somente o tempo diria da sua validade.

Para preservar a imagem de Garanhuns, nos setores das  letras e das artes, foi que construímos o Centro Cultural, com teatro que Jasseli sonhava, com a biblioteca para os livros que Félix Rui Pereira tanto estimava e a sala de conferências onde Ruber  van der Linden gostaria de ensinar aos seus alunos as múltiplas formas de servir a Garanhuns.

Quando Garanhuns entra no ano de seu centenário, devemos preservar os seus valores maiores, a imagem de uma  cidade culta, como demonstrou o Almanaque de Garanhuns nas suas páginas, com uma imprensa, a maior e mais importante do Interior do Estado. A imagem, acrescentamos nós, de uma  cidade progressista e civilizada.

Como evidentemente o tempo pesa menos nas cidades do  que nas pessoas, ousamos dizer que Garanhuns está a caminho do seu segundo centenário, uma realidade para a cidade e um  sonho para mim, o que importa dizer que as pessoas envelhecem a morrem enquanto as cidades renascem envelhecendo. E talvez mesmo seja a única maneira de ser contemporâneo de um sonho.

*Luiz Souto Dourado - escritor, jornalista, advogado, foi secretario estadual, prefeito de Garanhuns e deputado estadual. Recife/PE 1979.

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