segunda-feira, 11 de abril de 2022

História de Garanhuns

SEBASTIÃO MOURA LINS - Comerciante e pessoa muito respeitada na sociedade de Garanhuns, compadre de meu pai Zébatatinha que apadrinhou seu filho Paulo, era uma figura singular. Homem experiente em seu trabalho, pouca instrução formal mas inteligente bastante para criar uma obra de humor extraordinária. Nunca foi surpreendido repetindo histórias, anedotas e causos da autoria de terceiros, o que denota sua enorme capacidade criativa e uma imaginação fecunda.

Dois casamentos e muitos filhos que sustentam a relação de amizade afetuosa entre nossas famílias. Nunca me conformei que a sua família não tenha registrado toda sua “verve” e brilho e pude verbalizar essa minha inconformação à sua filha Maria Helena em encontro na Secretaria da Saúde que eximiu-se da tarefa cobrando de mim:

“Se você sabe tantas histórias de meu pai, porque não as escreve?.

Por isso sinto-me no dever de fazê-lo por conhecer alguns dos chistes de sua maravilhosa criação, mas preciso da ajuda da família.

Criou os protagonistas para suas histórias, sendo a mais importante “Seu João Borrego”, alto comerciante, fazendeiro e chefe político de Capoeiras, de quem explorava a pouca instrução. Era compadre de Sebastião e divertia-se demais com uma risada escancarada a ponto de, a cada encontro, cobrar “a sua nova história”.

Quando “seu” João morreu, em respeito Sebastião transferiu a personagem para o seu filho mais velho Heronides e quando Heronides morreu, mais uma vez repassou a personagem para o genro de Heronides, Zezinho Almeida, ambos figuras de destaque na sociedade de Capoeiras.

Pelo que se vê, Sebastião era um dos que faziam de tudo, mas não perdiam a piada! Pra começo, vou começar do fim, contando as últimas duas estórias de Sebastião antes de sua morte, que ouvi criadas e contadas por ele próprio:

ESCADA ROLANTE DO SHOPPING CENTER

A última vez que encontrei Sebastião, antes dele morrer, aconteceu no Shopping Center do Recife, ele com Dadá e eu com Dulce e a ocasião perfeita para escutar suas duas últimas histórias. Foi uma alegria o reencontro e, depois dos abraços, ele começou a reclamar de sua vida no Recife que só aceitou porque as meninas precisavam estudar aqui.

Lamentava a falta de Garanhuns, a falta da prosa com os amigos, sem ter com quem conversar e a solidão de encontrar-se “empoleirado“ num apartamento nas Graças, de onde pouco se afastava. Depois de muito se queixar, arrematou:

“Para lhe ser sincero, Ivan, a única coisa que presta aqui no Recife é aquele negocinho ali”, e apontando para a escada rolante explicou: Andei o quanto quis, subi e desci não sei quantas vezes, até cansar. E aí perguntei a um rapaz que estava no pé da escada: “Moço, quanto foi a passagem?” e ele respondeu para a minha surpresa: “Não é nada não, meu senhor, é de graça”. Aí não tive dúvidas em me aproveitar e dei a ordem:

“ENTÃO ME DEIXE NA RODOVIÁRIA!”.

Para completar contou uma segunda história que, segundo ele, ilustrava muito bem o aperreio e a confusão da vida que estava levando no Recife.

“Pra você ter ideia, essa semana tive que sair para resolver alguns negócios e preveni Dadá que iria me atrasar para o almoço”. Ela me tranquilizou e disse: “Olha Sebastião vai resolver seus negócios, pois eu vou sair também e deixo a empregada prevenida que à hora em que você chegar, você come”. E completou:

“SEU IVAN, FIZ UMA CONFUSÃO DANADA, TROQUEI AS COISAS E O RESULTADO É QUE COMI A EMPREGADA E ESQUECI O ALMOÇO”.

Veja que situação e caiu na gargalhada, no que foi acompanhado por todos nós, enquanto Dadá o mandava tomar jeito e deixar de invenção.

Crônica de Ivan Rodrigues da Silva | Ano 2014.

Blog Memórias e Inquietações de Ivan

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Secult-PE/Fundarpe divulga resultado final das propostas classificadas do FIG 2022

A Secult-PE e a Fundarpe divulgam o resultado final das propostas classificadas na análise de mérito artístico-cultural do 30º Festival de I...