sexta-feira, 15 de abril de 2022

MANOEL DAS ESTRELAS


Ouvimos essa história do meu pai, acerca de um louco maravilhoso que existia na sua infância em Garanhuns. No início do século XX, essa figura subia a Serra do Magano todas as sextas-feiras à noite (véspera da feira), carregando um enorme balaio daqueles muito usados na época em que se vendia pão e se entregava de porta em porta. Como o pão é muito leve e volumoso, exigia-se um balaio de dimensões enormes para conter o volume de pão necessário ao atendimento e distribuição a domicílio. O inusitado é que com um desses balaios, MANOEL DAS ESTRELAS (assim era chamado) subia a Serra e passava a noite inteira COLHENDO ESTRELAS até encher o balaio, segundo dizia. Quando amanhecia o sábado, dia da feira, descia a serra com o balaio na cabeça CHEIO DE ESTRELAS e ia vendê-las à sua costumeira freguesia que, acumpliciando-se ao seu sonho lindo, comprava toda sua colheita e garantia a sustentação do seu delírio poético, ingênuo e garanto: feliz.

Vejam como, mais de cem anos depois, observamos o lá distante comportamento de uma sociedade simples, despojada das sofisticadas novidades tecnológicas; com conversas na calçada ao invés dos rádios e televisões; saudáveis saraus nas residências com apresentação dos músicos, cantores, poetas e declamadores  em notável apuro de suas qualidades artísticas;  do convívio de famílias que se apresentavam em visitas protocolares quando chegavam à uma rua para residir e, do mesmo modo, visitas formais de despedida quando se mudavam; a quase obrigatória liturgia de pedir na casa vizinha uma xícara de açúcar ou uma colher de pó de café emprestados para atender uma falta ocasional; como uma vez me ensinou meu querido amigo e vizinho Estevão, já falecido: “vizinho que não incomoda não é vizinho!”; dos papos habituais mantidos nas lojas de então por grupos de amigos, sem contar com os jogos de gamão de Minervino, na entrada de sua loja “Veneza Americana”; o ritual cumprido à exaustão pela figura habitual de D. Nazinha percorrendo o dia inteiro a loja de Ferreira Costa, como hoje faz Ciro na loja da Imbiribeira (fiquei um dia de parte observando e lembrando os antigos tempos da loja secular); o sucesso de um rádio à bateria, no início da década de 40, instalado por Seu Matos (Arcelino Matos), na entrada de sua loja “A Atractiva” para divulgação ansiosa das notícias da guerra então em curso; as improvisações engenhosas dos nosso grêmios teatrais amadores; as tradicionais festas promovidas pelos três colégios, revelando valores artísticos; enfim, todos se conhecendo e se tratando pelos pré-nomes e até pelos apelidos.

Na sua singeleza e simplicidade, era uma sociedade suficientemente romântica capaz de sustentar sonhos coletivos e alimentar os delírios de um louco maravilhoso que almejava, e conseguia, colher e vender estrelas em nossa amada Garanhuns.  

Crônica de Ivan Rodrigues da Silva | Sábado, 15 de novembro de 2014.

Blog Memórias e Inquietações de Ivan

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