quarta-feira, 6 de abril de 2022

Minha era glacial

Waldimir Maia Leite

Preocupo-me: inicia-se em mim uma era glacial paralela ao esfriamento da terra para onde, um dia, volverei, pó que sou.

Quais os mecanismos que dão origem a essa lenta, porém progressiva, evolução climática em mim?

Tenho pesquisado a minha órbita para detectar as variações das quantidades de energia que, a partir de uns certos instantes do meu quotidiano, súbita e circunstancialmente me faltam.

Reúno, então, alguns elementos que infelizmente comprovam, cientificamente, o início, em mim, de uma era glacial que me cobrira, um dia, totalmente de gelo. Serei assim como um arbusto sem folhas nem frutos, que as aves evitarão.

Antes que me cubra todo de gelo, porém, ousarei lembrar minha cabeça sobre terno ombro, em repouso que agora tem prelúdio de pausa e de interrupção; mãos que cessam permuta de ternura; e um certo cansaço crescente sob o sol que  morre em minha órbita.

(Não tem chovido dentro de mim, ultimamente: eis  outra grave e inquietante preocupação que me deixa insone. E o mínimo que isto traz é uma profunda repercussão na economia agrícola do meu ato de semear sonhos. Pouco há a colher, em mim, sob cinzentas nuvens que me tornam os instantes sem luz).

A era glacial que, em mim, tem acentuadas marcas iniciais me transformará - em meu futuro clima - em gelo totalmente. E todos irão rir da minha estranha e insólita forma  kafkiana.

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