quarta-feira, 27 de abril de 2022

Os Gueiros enfrentando Lampião

Amélia Gueiros Malta e João Malta, Águas Belas-PE, década de 1930

Seria muito difícil  a uma família nordestina sertaneja, como esta existir no mesmo espaço físico do cangaceirismo, sem ser afetada por ele. Mais ainda, por terem sido muitos de  seus membros ligados ao aparato da Justiça - quer seja como policiais, advogados, promotores ou juízes - alguns deles, bem como seus parentes e contraparentes, uma vez ou outra, tiveram algum contato ou enfrentamento com o banditismo nordestino. Outros eram pastores evangélicos, missionários nos sertões, tendo eventualmente tido contato com o cangaceiro Lampião, personalidade dominante do cenário sertanejo, por mais de vinte anos.

Vários foram os contatos e enfrentamentos dos membros desta família com esse cangaceiro. Alguns desses foram muito perigosos. Outros foram apenas anedóticos, mas fazem parte da história  e folclore da mesma. Entre essas pessoas, destaca-se, evidentemente, o major Optato Gueiros. Esse, como oficial de forças volantes, perseguiu Lampião durante muitos anos.

Optato foi comandante em vários combates da volante pernambucana contra esse famoso bandido, tendo no início de suas atividades policiais, de acordo com informações dadas pelo seu velho companheiro de armas Davi Jurubeba, em um dos primeiros encontros de Optato com Lampião - este baleara o próprio Lampião, e matara o corneteiro da tropa de bandidos. Ao se aposentar, Optato escreveu o já mencionado livro de memórias, intitulado lampião - Memórias de um Oficial de Forças Volantes, publicado em 1952. 

Que se saiba, pelo menos seis pessoas da família, e seus  contraparentes, além do major Optato Gueiros, tiveram contato com  Lampião. Esses foram: o pastor Aggeu Vieira da Silva, marido da professora Noêmi Gueiros Vieira; João Maurício Wanderley, marido de Irecê Gueiros Furtado; o coronel João Nunes, casado com "Amelinha Gueiros"; e Abigail Gueiros Nunes e seu cunhado Ruben da Silva Gueiros.

Antes do aparecimento de Lampião no cenário nordestino, o capitão Francisco "Chico" Furtado, enfrentara com muito sucesso o banditismo em Brejão de Santa Cruz, distrito de Garanhuns, tendo eliminado o maior dos bandidos daquela época, o famigerado "Cabo Preto" (Van der Linden, 1928). Outro membro afastado da família, engajado na luta com o banditismo, foi Abdias Branco. Este, quando delegado de polícia de Garanhuns, entrou em conflito com o bandido "Paizinho Baio", que pretendia ser um novo Lampião do Agreste, mas cuja carreira foi de pouca  duração (Optato Gueiros, 1956). Paizinho atuava com bandos  formados nos  municípios de Garanhuns, Bom Conselho, Correntes, Águas Belas e Buíque. No entanto, sem possuir o tino militar de Lampião, era sempre derrotado pelas forças volantes, sendo finalmente morto pelo delegado de Garanhuns , Abdias Branco.

O primeiro desses "encontros" com Lampião - além dos de Optato Gueiros, acima registrados - envolveu o pastor Aggeu Vieira, marido de Noêmi Gueiros Vieira. Esse incidente ocorreu em 1925, quando ele ainda estudava no Seminário Presbiteriano do Norte, no Recife. Apesar de ter nascido em Pernambuco, Aggeu Vieira fora criado nos seringais da Amazônia e conhecera, desde a infância, os perigos da selva.

Sua mãe, Theonila Mendes Vieira, contava como no local onde moravam no Amazonas, as onças vinham todas as noites rondar a casa, buscando roubar os porcos e as galinhas, e tentavam subir as  palafitas da casa onde moravam. Certa feita, o pai dele, José Vieira da Silva, sofrera um ataque de uma cobra sucuri, quando sozinho no  meio da mata, tendo por  muito pouco escapado do "abraço da bichana", como falam os amazônidas. Pior ainda foram os enfrentamentos que a família teve com os bandidos armados, mantidos pelos grandes seringalistas, para expulsar os pequenos proprietários e posseiros, como o velho José Vieira da Silva e família. Eventualmente o patriarca da família desistiria da ideia de fazer fortuna no Amazonas, voltando a ser construtor civil licenciado em Pernambuco.

Tendo se criado no meio da selva, onde as pessoas sempre andavam armados, e enfrentavam toda sorte de perigos, o pastor Aggeu Vieira da Silva, desenvolvera grande intimidade com armas de fogo, e parecia ter muita confiança nelas para livrá-lo dos apuros.

Enfim, que estória fora essa, envolvendo Lampião? Quando estudava no Seminário Presbiteriano do Norte, Aggeu Vieira trabalhava no Recife como tradutor e interprete do consulado norte-americano. Foi então enviado ao sertão como acompanhante de "uma cientista americana", estudiosa das coisas do Nordeste. Isso ocorreu em 1925.

Viajaram os dois até as cachoeiras de Paulo Afonso, tendo passado por Mata Grande, Alagoas, localizada ao longo de uma trilha de boi, naqueles tempos classificada como rodovia. Ao voltar de Paulo Afonso, mal tinham regressado a Mata Grande, quando receberam a notícia de que Lampião estava na redondeza, tendo mandado um recado: "Entreguem a gringa; ou vou lá buscá-la".

Mata Grande, então uma grande vila com foro de cidade, era um reduto de contraparentes dos Gueiros. Havia ali também uma congregação presbiteriana, pastoreada a longa distância, por  Antônio Gueiros. Esse a visitava, de tempos em tempos, viajando a cavalo os 300 quilômetros de Garanhuns e Mata Grande.

A maioria dos contraparentes dos Gueiros, em Mata Grande, eram da família Malta, pois Amélia da Silva Gueiros, de Águas Belas, filha de Francisco de Carvalho Silva Gueiros, casara com João Malta. Esse era neto de João José de Malta, natural da Ilha de Malta, patriarca dessa família, estabelecido em Águas Belas e parente dos Maltas de Alagoas.

As pessoas em Mata Grande ficaram muito amedrontadas com  aquelas ameaças de Lampião, apesar de a cidade contar com um  Tiro de Guerra, que substituíra a antiga Guarda Nacional, extinta em 1922. No entanto, essa organização paramilitar , símile à Guarda Nacional, era composta de pessoas sem nenhuma, ou muito pouca experiência militar.

As autoridades matagrandenses não se dispunham entregar a americana a Lampião. No entanto, considerando o grande desânimo que se abatera sobre a cidade, Aggeu vieira imaginou que o cangaceiro facilmente entraria lá e sequestraria a moça. Como encarregado da sua segurança, decidiu reagir. Colocou na cintura uma pistola Mauser - sua sempre fiel companheira nos sertões - e saiu conclamando as pessoas a montarem uma resistência ao poderoso cangaceiro, nisso sendo atendido especialmente pelos Maltas e Mellos, estes parentes distantes do Senador Arnon de Melo, avô de Fernando Collor de Melo.

Os membros do Tiro de Guerra matagrandense subitamente se  animaram. Vestiram seus uniformes, pegaram seus velhos fuzis e, montados a cavalo, saíram tocando cornetas rua acima e rua abaixo, fazendo um grande barulho de guerra. Mais ainda, colocaram homens armados nas entradas da cidade, e montaram pontos de fogo cruzado em todas as esquinas, especialmente na praça principal, onde estava a pensão da americana.

Hoje sabemos, através do livro do professor Billy Chandler, que  os homens de Mata Grande, em 1925, travaram uma batalha de  duas horas, com Lampião, tendo este fugido (Chandler, 1981). Fugiu, porém deixou um recado: voltaria para se vingar. Isso ele fez, em 1930, evento esse abaixo relatado.

Confirmação dessa velha estória, ocorrida em Mata Grande, ouvida tantas vezes de meu pai, chegou-me de forma inusitada, em  1949 ou 1950, da boca da própria "cientista americana", alvo das ameaças de Lampião. Naqueles anos eu estudava nos Estados Unidos da América, no King College, faculdade presbiteriana, em Bristol, Tennessee. Assim, certa tarde, passava em frente à casa do Dr.  William Arrowood, professor de filosofia e teologia da faculdade, quando ele, a mulher e uma senhora de cabelos brancos se aproximaram de mim.

"David", falou Dr. Arrowood, "quero apresentá-lo a esta senhora", e mencionou o nome dela, que não lembro. "Ela já esteve no Brasil", continuou o professor, "e gostaria de conhecê-lo. É decana da faculdade...", e mencionou o nome, que também não gravei.

A senhora então me falou muito amavelmente. Relatou ter estado pesquisando no Brasil, quando ainda pós-graduanda, em uma  viagem que fora a grande aventura de sua vida. Contou como viajara a cavalo até a cachoeira de Paulo Afonso, acompanhada de "um bravo seminarista presbiteriano", seu tradutor e guia. Mencionou ainda como "um famoso bandido daquela época" quase a sequestrara, se não fosse a ação corajosa de seu acompanhante. Relatou então, com todos os pormenores, a mesma estória  tantas vezes contada pelo meu pai.

Mal pude acreditar no que ouvia. Ali estava a famosa "cientista", repetindo, com detalhes, a mesma estória que tantas vezes ouvira na infância. Muito acanhadamente, informei-a conhecer a  história, e que o jovem seminarista, seu acompanhante, fora meu pai.

Foi então a vez dela de arregalar os olhos em total incredulidade. Pediu-me encarecidamente o nome e endereço dele, pois desejava escreve-lhe, agradecendo-o pelo que fizera por ela  tantos anos atrás. Não sei se de fato a professora americana chegou a escrever tal carta.

O segundo encontro de membros da família com Lampião ocorreu também em Mata Grande, Alagoas, cerca de cinco anos depois, em 1930.

Cumprindo a ameaça feita, quando não conseguira sequestrar a americana, e aproveitando  a ausência da polícia, chamada em defesa da capital, na Revolução Liberal, Lampião mais uma  vez foi a  Mata Grande. Dessa vez sequestrou três pessoas: os missionários norte-americanos Mr. & Mrs. Irving F. Smith, e Maurício Wanderley, professor da escola mantida por aqueles missionários evangélicos naquela localidade. Maurício Wanderlei era casado com Irecê Gueiros Furtado, filha de Soriano de Carvalho Furtado e Anália Gueiros Furtado.

A história desse  sequestro foi contada, com grande estardalhaço pelo jornal The Firing Line, de janeiro de 1931, jornal esse publicado mensalmente pelo missionário William Neville, em Garanhuns. Esse era o tipo de estória que os assinantes norte-americanos, para quem o jornal era escrito, adoravam ler, participando assim vicariamente das aventuras de seus missionários nos países exóticos da América do Sul, África e Ásia.

De acordo com aquela publicação, um casal norte-americano, Mr. & Mrs. Irving F. Smith, da Christian Church Mission, que residia em uma casa  um pouco  afastada do centro de Mata Grande, fora aprisionado por Lampião. Acompanhando esta notícia, o Firing Line trazia carta de outro missionário, Mr. O. S. Boyle, escrita no mesmo dia do sequestro, contando os detalhes da ocorrência.

Em suma, o casal americano, chamado Smith, acompanhado de  outro casal chamado Johnson, e um missionário solteiro chamado  Boyle, da Christian Church Mission estavam em Mata Grande, onde tinham montado uma escola, da qual era professor de matemática o  brasileiro Maurício Wanderley. Cumprindo sua ameaça de alguns anos, Lampião regressara a Mata Grande, no dia 27 de novembro de 1930, e aprisionara a casal Smith, juntamente com o professor Maurício Wanderley.

Notícia da aproximação do bando de cangaceiros já tinha chegado à cidade de Mata Grande, no dia anterior. Como em ocasião prévia, os membros do Tiro de Guerra se preparavam para uma batalha, "tocando cornetas enquanto se movimentavam de um lugar para outro em sua vigília", registrara o jornal. Isso ocorrera durante toda a noite do dia 27 de novembro. Na manhã seguinte, como nada ainda acontecera, parecia que tudo estava em paz. Foi quando passou um fazendeiro pela casa dos Smith e os aconselhou a procurar refúgio na cidade.

Os americanos então saíram de casa em uma charrete, a caminho de Mata Grande, quando foram surpreendidos, aprisionados e  levados para a fazenda de um certo José Malta, onde Lampião estava acampado. Daquela prisão, Mr. Smith escrevera um bilhete, para  ser levado à cidade por Maurício Wanderley, informando os companheiros Johnson e Boyle sobre o ocorrido. Para soltá-los, Lampião estava exigindo 11:000$00 (onze contos de réis), equivalentes a aproximadamente US$ 1,220,00 (mil e duzentos e vinte dólares) assim informava o jornal.

Nesse ínterim, enquanto esperavam pelo dinheiro do resgate, "Cheios de emoção" e "gratos a Deus pela grande oportunidade de pregar o Evangelho aos bandidos", os Smiths e Maurício Wanderley, de joelhos, passaram a cantar hinos evangélicos, a orar em voz alta e ler a Bíblia para os cangaceiros. Essas orações e cânticos duraram várias horas, de modo que Lampião afinal cansou-se daquilo tudo e  passou a insultá-los e a dizer palavrões.

Lampião era homem dito "muito religioso", e cheio da religiosidade típica do sertanejo. Por essa razão, a princípio a fé dos missionários deve tê-lo emocionado um pouco. Dessa maneira, quando Maurício Wanderley regressou, com o dinheiro do resgate, porém trazendo ao todo apenas 220$000 (duzentos e vinte mil réis), emprestados aos missionários pelos comerciantes da cidade, Lampião já estava pronto a mandar os "gringos" embora, de tão cansado estava dos seus hinos, orações e leituras bíblicas.

Os duzentos mil-réis enviados pelos amigos na cidade eram quase todos em moedas de cruzado e vintém, pois era véspera de feira. Os Smiths ainda acrescentaram o equivalente a US$ 23,70, que  tinham em casa, tudo em moeda. Lampião zangadíssimo aceitou apenas o dinheiro em notas de papel. Jogou o resto no chão - quase metade do resgate - exclamando: "Não sou cego de feira para aceitar esmola de vintém". Imediatamente os Smiths e Maurício Wanderley passaram a apanhar todas as moedas jogadas fora, para levá-las de volta, o que foi  feito.

Finalmente, às 19:00 horas do mesmo dia, os Smiths e Maurício Wanderley foram soltos. Às 21 horas chegava a Mata Grande um  destacamento de 30 soldados, enviados não se sabe  de onde, para dar segurança à cidade. Nesse ínterim Lampião partira,  depois de  muitos insultos e palavrões endereçados aos missionários americanos.

Essa, sem dúvida, foi a grande aventura na vida de  todos os envolvidos. Maurício Wanderley frequentemente relatava essa estória  aos estudantes do Colégio 15 de Novembro, em Garanhuns, onde  passara a lecionar. A mesma era repetida pelo missionário Virgil Smith, quando vinha àquela escola em Garanhuns. Exceto que Mr. Smith contava sua história com muitos e folclóricos detalhes, como o de  Lampião ter gritado com eles, quando já não aguentava os hinos, orações e leituras bíblicas: "Cala o boco, filho do puti, misturada com cachorro (sic)".

Ouvindo a história de Mr. Smith, a garotada colegial ria ao ponto de rolar no chão. O americano não compreendia porque algo tão terrível, e ao mesmo tempo, para ele, tão inspirador - como a história daqueles missionários, salvos por Deus das mãos dos perigosos bandidos - podia ser tão hilariante para os estudantes do Colégio 15 de Novembro.

O terceiro incidente envolveu três pessoas: o coronel da polícia pernambucana João de Araújo Nunes, sua filha Abigail Gueiros Nunes,  e Ruben da Silva Gueiros, futuro genro do coronel. Esses  eventos  foram contados por Optato Gueiros em seu livro sobre Lampião, bem como por Nertan Macedo, em Lampião, Capitão Virgulino Ferreira, e  também pelo norte-americano Billy Jaynes Chandler, em seu trabalho, intitulado Lampião, o Rei dos Cangaceiros. Faltava a esses autores, no entanto, certos detalhes que apenas os protagonistas daquele evento poderiam acrescentar, o que foi feito pelo próprio Ruben Gueiros, em entrevista comigo.

A Revolução de 1930, como já visto, causara grandes transformações, não apenas nas capitais, mas também no sertão. O interior, especialmente no Nordeste, fora deixado totalmente desprovido de  policiamento, ao serem os policiais chamados às capitais para defender os governos estaduais. Para manter a ordem local, ficaram apenas os Tiros de Guerra, compostos de cidadão nem sempre habilitados a assumir as responsabilidades de policiais. Nesse vácuo de poder, aproveitaram-se os criminosos, especialmente os cangaceiros, tipo Lampião.

Esse bandoleiro aproveitou aquele momento para descer da Paraíba - onde fora severamente acossado pela volante paraibana -  a fim de buscar refúgio em Sergipe e Bahia. Ao longo do caminho, aproveitou-se da oportunidade para também acertar contas com  velhos inimigos, como os de Mata Grande. Após ter acertado contas com Mata Grande, movimentando-se então em direção leste, decidiu também passar por Águas Belas, e acertar contas por lá também.

O já mencionado ataque a Mata Grande, e aprisionamento dos missionário ocorreu entre 27 e 28 de novembro de 1930. Poucos dias depois, no mês de dezembro, o bando de Lampião chegava à fazenda chamada "Sueca", pertencente ao coronel João de Araújo Nunes. Por acaso o coronel estava lá, tendo há pouco chegado do Recife, após ser reformado da Polícia Militar de Pernambuco. Os novos governantes revolucionários de Pernambuco permitiram-no  antecipar a aposentadoria, visto ter sido ele "o último bastião da  legalidade", como Optato Gueiros o chamou, defendendo a Casa de Detenção no recife até o último momento naquela revolução (Optato Gueiros, 1956).

Coronel João de Araújo Nunes e seu irmão, tenente-coronel José de Araújo Nunes, eram quinquenetos de João Rodrigues Cardoso, através de Francisco Soares Cardoso e Joana Lins de Albuquerque. Eram primos irmãos de Etelvino Lins de Albuquerque, e primos em  segundo grau dos filhos de Rita Francisca Barbosa da Sila Gueiros. Ambos os Nunes tinham seguido bem sucedidas carreiras na Polícia Militar de Pernambuco. Coronel João Nunes nascera  em 1881, tendo portanto 49 anos de idade quando lhe ocorreu este incidente, em  Águas Belas (Vasconcelos, 1962).

Há pelo menos quatro versões da estória desse encontro  do coronel João Nunes com Lampião: a de Optato Gueiros, a do  jornalista Nertan Macedo; a do historiador americano Billy Jaynes Chandler e a versão oral de Ruber da Silva Gueiros, genro do  coronel.

Optato Gueiros considerava coronel Nunes um bravo oficial, porém também capaz de cometer atos tresloucados, em função de sua  visão distorcida da bravura. Conta Optato que João Nunes, ao ser  preso e interrogado pelo bandido, foi-lhe perguntado por que havia incendiado a povoação de vila de São Francisco, anos  antes, deixando a população desabrigada, um dos seus atos  militares mais  inescusáveis. Respondeu o oficial ter feito aquilo "em cumprimento do dever".

"Não senhor", retrucara Lampião, "esse cumprimento de dever assim é meu. Só eu posso matar e queimar"  (Optato Gueiros, 1956).

No momento de João Nunes ser preso e interrogado por Lampião, continuou Optato, apareceu por lá um irmão dele, fazendeiro na vizinhança. Lampião também o interpelou, querendo saber quem ele era e de onde. Respondeu o recém-chegado ser dali perto, mas  asseverou não conhecer o coronel João Nunes. Este, zangado com a cautela do irmão, gritou-lhe que não fosse covarde, negando daquela maneira seus laços familiares.

Irritado com a mentira do irmão de João Nunes, Lampião mandou espancá-lo, o que foi feito ali mesmo e com tamanha brutalidade. Não se sabe qual dos irmãos foi esse. A família Nunes era composta de 11 irmãos e irmãs: 6 mulheres e 5 homens, incluindo o próprio coronel (Vasconcelos, 1962).

Continuou Optato Gueiros: "Arranjaram um burro (sic) muito trotão e lerdo, montaram o coronel João Nunes, amarraram-lhe os pés por  baixo da barriga do animal poltrão e ataram-lhe as mãos, para assim os acompanhar por doze léguas através da caatinga fechada, enquanto eles, cavalgando ótimos cavalos, exigiam ser acompanhados pelo oficial em tais condições. Atravessaram o município todo o Estado de Alagoas e transpuseram o rio São Francisco para a Bahia, onde deveria ser fuzilado o oficial prisioneiro. Aconteceu, por felicidade dele, que ia no grupo um ex-soldado que  conhecia o coronel e, por solicitações deste junto a seu chefe, foi revogada a sentença de morte e obtida a liberdade, sem pagar o resgate de cinco contos de réis (sic) exigidos por Lampião" (Optato Gueiros, 1956).

O jornalista Nertan Fernandes conta o evento acima, com outros detalhes. Afirma  que Lampião entrou na casa de João Nunes enquanto este coava café, seguindo-se o seguinte dialogo:

- "João Nunes, você sabe quem eu sou?

- Lampião, não, senhor! Capitão Virgulino Lampião!

- Não lhe reconheço a patente! Eu, sim, sou coronel.

- Pois você vai comigo preso!

Tendo dito isso, conta Macedo, Lampião mandou amarrá-lo com uma corda, no lombo de uma cavalo (sic), metido no meio de uma carga de milho. Levaram então o coronel pela caatinga a fora, com  as mãos amarradas, em cima daquele animal. E recusaram dar-lhe água por muito tempo.

"Mas João Nunes não era homem de fraquezas", escreveu Nertan Macedo, "durante dois dias não deu uma única palavra. Nem pediu água, nem implorou piedade".

Acrescentou Nertan Macedo: "Quando Lampião lhe comunicou que ia fuzilá-lo, replicou: "Peço apenas que não me vedem os olhos. Quero ver de perto os cabras que vão me matar" (Macedo, 1975).

Afirma então Macedo que, com essa bravura ou bravata de João Nunes, Lampião, após ter decidido que não o fuzilaria, ainda rendeu-lhe suas homenagens dizendo: "Sei que você tem filhas mulheres. Espero que saia daqui agora e por onde passar vá fazendo filhos machos nas mulheres que encontrar. Para herdar essa sua coragem".

A versão dessa mesma história, como contada por Billy Chandler, é menos dramática, sem no entanto desmentir o que escreveram Nertan Macedo e Optato Gueiros. Afirma o professor americano: "Durante a viagem para Alagoas, a coragem e a afabilidade (sic) do  velho soldado impressionaram os cangaceiros, que a ele se  afeiçoaram. Quando depois de uns dias, o resgate não chegou, persuadiram Lampião a soltá-lo (Chandler, 1981).

O resgate não chegou porque não havia como encontrar Lampião. Para começar, o resgate pedido fora de quinze contos de réis, informa Ruben Gueiros, e não cinco contos, como Optato Gueiros registrara em seu livro. Mais ainda, Nertan Macedo escreveu que a  oferta da filha do coronel - chamada Abigail Gueiros Nunes - de  pessoalmente entregar o resgate, "não fora necessário porque  outras pessoas se ofereceram para fazer isso", não é verdade. Ninguém se voluntariou para entregar o resgate, exceto ela e o primo Ruben da Silva Gueiros, noivo de Elizabeth Nunes, irmã de  Abigail. Ruben, recém-saído das trincheiras da revolução de 1930, ofereceu-se para acompanhar a futura cunhada, em sua busca de Lampião.

Ruben Gueiros pessoalmente relatou-me ter ele e Abigail Gueiros Nunes saído pelo sertão afora, com o dinheiro do resgate em uma  maleta, em busca do cangaceiro, sempre seguindo pistas falsas, deixadas pelo próprio bandido. Por essa razão, nunca o alcançaram. Quando haviam abandonado a empreitada, e já estava regressando a Águas Belas, foram informados da liberação do coronel.

Essas estórias sem dúvida são parte do folclore da família, tendo sido contadas e recontadas de várias maneiras. Quanto a outros contatos com Lampião, resta apenas relembrar a carreira do major  Optato Gueiros.

Fonte: Trajetória de uma Família - A História de Família Gueiros - David Gueiros Vieira - Julho de 2008.

2 comentários:

  1. Sou neta de André Gueiros da Silva e filha de Luís Gueiros da Silva; adoro saber sobre a família Gueiros.

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  2. Ah. Gostaria muito de saber a real origem dos Gueiros. Você pode me ajudar?

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