segunda-feira, 4 de abril de 2022

Passarinho assustado

Causos do Augustinho - Certa vez num mês de junho, frio e chuvoso, um amigo dele, um tal de "Cróvi", da Baixinha, lá do lado de Inhumas, onde o Augustinho viveu e conheceu bem a região, veio fazer feira em  Garanhuns. O tal de "Cróvi", tinha uma bicicleta, transporte suficiente, na época, para destacá-lo como arremediado entre outros "Cróvi" na região. De volta da feira sob forte garoa, bagageiro da  bicicleta, com quase um saco de compras, lá vem o amigo do Augustinho, por entre estreitos caminhos no meio de viçosos roçados de milho e feijão. Mas enxergava o caminho, escorregadio mas, ali, firme, pedalando sua Monark, que tinha comprado à prestação por Cr$ 5,00 (Cinco cruzeiros por semana), numa promoção da antiga loja S. Moraes.

Poucos pássaros no caminho, tendo em vista o tempo chuvoso. Mas  "Cróvi" não pode evitar: um passarinho, Papa-Capim, cruzou seu caminho e, como a visibilidade para ambos era ruim, a  pequenina ave chocou-se no peito de  "Cróvi" e caiu na lama desfalecido.

Sensibilizado com o incidente, defensor da Natureza, consciente da  importância dos pássaros na manutenção da ecologia, voltou apanhou o  pássaro, viu que ainda respirava, o agasalhou num lenço, colocou-o no bolso do capote e apressou as pedaladas para chegar em casa depressa e tentar salvar a vida do frágil e encantador ser vivo. E assim o fez. Ao chegar em casa, mandou a mulher cuidar de pegar as compras e foi logo providenciar mercúrio cromo pra tratar do  Papa-Capim.

Feito o curativo, agasalhou a ave num pequeno pedaço de pano, o pôs numa gaiola velha, do tempo de criança, quando pensava que era justo criar pássaros aprisionados e disse para si mesmo: - o bichinho vai ficar bom, vou soltá-lo para a  vida livre que todo ser vivo tem direito.

"Cróvi", passou o resto do dia, vez por outra, indo até a gaiola e conferindo, assim foi até o anoitecer. Ao deitar-se, deu  outra conferida, percebeu que a avezinha, ainda respirava. Antes de dormir, até rezou pela pronta reabilitação, fazendo até promessa, caso seu intento fosse bem sucedido.

Deixou um candeeiro aceso, parto da gaiola, para que o passarinho não sentisse frio e foi deitar-se...

Pela madrugada, acordou-se com a mulher lhe chamando, agoniada, dizendo que o passarinho estava chorando, na gaiola!

Mais que depressa, "Cróvi", levantou-se e foi ver o que estava acontecendo. Quando chegou perto da  gaiola ouviu os prantos dos Papa-capim.

É que, segundo Augustinho, o passarinho quando se reabilitou, se pôs de  pé, e viu que estava preso, deduziu: Minha Nossa Senhora, tô preso, matei o homem da  bicicleta!

*Augusto Teixeira Filho (foto), popularmente conhecido como "Augustinho", tinha um bar e restaurante na rua Ari Barroso, lado esquerdo do antigo Fórum de Garanhuns. Augustinho faleceu em julho de 2012, deixando sua poesia, os seus causos e o abraço amigo.

*Rocir Santiago | Garanhuns, junho de 2002 / Jornal O Monitor.

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