quinta-feira, 21 de abril de 2022

Rua 15 de Novembro

Neide de Oliveira Tavares*

Dentro desta coluna, quero mais uma vez me  reportar ao "Percorrendo ruas", porque essas sempre me vêm à lembrança, despertando um desejo de  andar por elas novamente.

Percorro a Rua 15 de Novembro, cujas primeiras recordações guardadas, são das suas enchentes e os transtornos causados aos moradores, por conta das grandes chuvas de verão. Era imensa a curiosidade provocada em nós meninos, moradores da Rua do Recife, que corríamos para verificar os estragos e prejuízos, tão logo cessasse o aguaceiro, da outra rua, tão próxima a nós. Víamos a perturbação das  famílias, como a do seu Severino, comerciante, que tinha um  depósito de cocos secos na cidade, que residia nessa rua, exatamente no baixio, onde as águas teimavam se acumular. Ali ficávamos admirados observando os estragos, também solidários diante de tamanha adversidade.

Anos depois, já casada, mãe de duas filhas, senti na  pele, toda aquela aflição. Morando na casa que hoje pertence ao seu Joaquim Timóteo, não coloquei em tempo o reforço das tábuas  de proteção nas portas, quando a chuva que não prometia tanto, começou a cair. Corri em tempo, com as filhas para o segundo quintal, onde havia um apartamento, situado num ponto mais alto do que a casa. Quando tudo acalmou e a chuva cessou, desci temerosa, para verificar os estragos. A casa estava de uma ponta a outra, lama só. Mais ou menos um  palmo de altura, beirando as portas dos armários, enlameando as cortinas, e como as outras casas da minha infância, abri as portas, e os conhecidos vinham contemplar de perto, o prejuízo. Tudo se repetia. Com a diferença de que  dessa vez, eu era a protagonista daquela história. Não mais espectadora. Com ajuda de um casal amigo que aparecera espontaneamente, (o marido se encontrava fora da cidade), foi tirada toda a lama, sob a luz de velas, e mais tarde, outros amigos vieram lavar toda a casa, que havia sido encerada pela empregada durante o dia. Foi grande a solidariedade recebida, e nunca esqueci o favor que me foi prestado naquele fim de tarde. Eram os casais Eriberto Chianca e Jane, e Alberto Galindo e Vilma.

Mas, voltando às minhas recordações de infância, a  rua 15 ainda não era calçada, quando a conheci. Ao longo de todos esses anos, várias famílias por ela passaram. A família Frias; a família Cipriano com os seus filhos, meus amigos; a família Chagas, das minhas amigas Aparecida e Fátima; a família do comerciante de sapatos, Né Paulo; de Zé Dona (o cheiro gostoso do doce de goiaba fabricado por ele, no grande quintal, inundava a rua, e me vem sempre à lembrança); de Abílio da mercearia da esquina, hoje padaria. A família do  barbeiro Alcides, que vive na mesma casa até hoje; de dona Celina e seu Joca, há muito falecidos; de seu Elísio do fomento, que fabricava licor de diversos sabores; de seu Zé Maria Jatobá, gerente do cinema Jardim; do seu Nozinho, de  seu Dida, avô dos nossos amigos Jadson e Barbosinha. A família dos Souto Almeida, cheia de moças bonitas, já na altura da Praça Dom Moura, da escritora Luzinette Laporte, da professora Ivonita Guerra, de Janilde e seu Antonio, lá na esquina, já perto do posto, que tirava fotografias, e com quem tirei uma nos meus nove anos de idade; de Clóvis Vidal, do advogado José Francisco de Souza, das minhas amigas Giselda e Gildete Aguiar, que fazia tricô, com muita agilidade enquanto conversava; do oftalmologista Pedro de Góes, dos Leitão de Cremilda, minha colega no Santa Sofia. Da família de seu Moisés guarda, de Eládio Ramos, de dona Luísa Peixe, tesoureira do Colégio 15 de Novembro, acompanhada do casal de  filhos: Terezinha e Peixinho. De dona Florinda Simões,  irmãos, no lindo e antigo casarão, no qual entrei, embora sempre sentisse vontade, como sentia também de percorrer aquele vasto sítio, onde foi construído o Supermercado Pérola. Ainda essa semana sonhei com aquela casa que fez parte do cenário da minha infância, por onde eu passava em  frente todos os dias. Lembro da fragrância e beleza do pé de  manacá, próximo a um dos portões, e como ficava carregado de flores perfumadas em determinadas épocas do ano. Cada casa uma história, uma lembrança... Esses, moradores da minha infância. Os que eu me lembro. Depois, vieram muitos outros...

Entre esses outros, que chegaram ao correr dos anos, a  família de Nicinha, abnegada protetora dos animais, o Dr. Rilton Rodrigues, depois meu professor na faculdade, Gerson Lima e a sua filharada (meus bons amigos), Lindalva e  Gerusa Gueiros, Neti Borges, que também estudou comigo no Santa Sofia. A família de João Gomes e o seu reisado, a do seu Sebastião Gomes, pai de uma porção de jovens que eram e ainda hoje são meus amigos. Impossível citar todos, sem que  fique alguém fora das recordações. Hoje, poucos ainda residem na Rua 15 de Novembro, outros abriram pontos comerciais por ali. A rua bucólica, de calçamento de pedras e bangalôs antigos, não existe mais.

Passagem quase obrigatória para quem vem do bairro de Heliópolis, em direção ao comércio, a Rua 15 de Novembro é de grande importância na cidade. O problema das águas foi "solucionado", por um comerciante nela estabelecido, empurrando-o para a rua Dr. José Mariano, mais ou menos em frente à casa que foi minha residência, que consegue superar logo  a enchente, porque encontra vazão na Avenida Agamenon Magalhães. Disso os moradores daquela rua  ficaram livres. Foi muito tempo de sufoco. Foram muitas as  perdas e os sustos sofridos. É justo que tenham um pouco de  paz. Os outros agora, suportam as cargas d'água.

*Neide de Oliveira Tavares é jornalista, escritora, historiadora, cronista e professora. Crônica transcrita do Livro "Lembranças de Garanhuns e outras mais". Ano 2014.

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