domingo, 1 de maio de 2022

Rua Pascoal Lopes

Neide de Oliveira Tavares*

Alguém me fala que está com saudades do "percorrendo ruas..." E eu disse que eventualmente, dentro desta coluna, poderia voltar. Hoje, para satisfazer, acho que mais a mim mesma, volto. Embora, exista quem diga que já está saturado. Entretanto, fui solicitada a voltar.

Nos tempos idos, 1963, recebi uma nomeação municipal, ato do prefeito Aloísio Souto Pinto, para ensinar no  Grupo João Pessoa. Estava localizado no fim da Rua Pascoal Lopes. Ali cheguei, cansada de subir a ladeira do morro, início do Magano, parando no caminho para descansar. Era, e  ainda é, uma ruazinha pacata, com um bar na esquina, como essas ruas sossegadas, que somente existem no interior. Não conhecia quase ninguém, e fui temerosa, depois da  malfadada tentativa de ser professora na Escola Madre Loyola, que em outra vez, narrei. Lembro bem daquela classe, composta por adultos quase analfabetos, no horário noturno. Eu ia muito empolgada, querendo usar os métodos que  aprendíamos no colégio, com a professora Aretusa Gueiros. Foi um pouco decepcionante, verificar que era uma utopia, aplicar métodos considerados modernos, com aquela turma, que somente queria aprender a ler e escrever. Tinha também de usar mais disciplina, do que ao ensinar crianças, e era bem pesado para quem tinha um pouco mais 18 anos de idade. Com exceções, eram jovens cordiais, que se prontificavam a servir no que fosse necessário.

Ao sair da aula, às 9 ou horas da noite, não lembro bem, levava comigo um pedacinho de giz, para marcar um poste de eletricidade, existente na Rua Joaquim Nabuco, próxima à Praça da Bandeira. Com um xis, que era o sinal combinado com o noivo Tavares, que estudava no Diocesano, ficava indicado que eu já havia saído da escola, para casa. Quando não havia o sinal, ele chegava até a porta do grupo, para me esperar. Havia mais duas outras professoras, mas  somente recordo de dona Jorgelina, e da servente, dona Cerzina.

No outro ano, fui ensinar durante a tarde, na classe de alfabetização infantil, e convivi com as professoras veteranas, verdadeiras mestras: Virgília Bessa, Argemira, e Iracilda Pedrosa. Esta última, irmã dos jornalistas Ronildo e Waldimir Maia Leite, excelente criatura, que muito ajudou no início da  minha profissão. Trabalhei durante quatro anos no Grupo João Pessoa.

Vez por outra, encontro um ex-aluno daquela época, que de mim não lembra mais. Como tenho uma memória privilegiada, recordo alguns deles, mesmo tempos depois.

Da ruazinha Pascoal Lopes, caminho da jovem professora, lembro de alguns moradores, mesmo não sabendo os nomes, guardo a fisionomia, daqueles que estavam sempre à porta, depois do almoço, na hora em que eu passava, timidamente. A semana anterior, passei em frente ao Grupo. Estão restaurando. Vai ficar mais bonito, principalmente porque é uma construção sólida e antiga.  Senti alegria ao verificar que estão cuidando com carinho, do meu primeiro abrigo profissional.

Em tempo: Pascoal Lopes - O seu nome completo era Pascoal Lopes Vieira de Almeida. Exerceu o cargo de  Conselheiro Municipal, e promoveu em 1894, a construção de uma igreja na Boa Vista, em homenagem a São Sebastião, o  seu padroeiro. Era comerciante, dono de uma mercearia no centro da cidade.

(Dedicada à professora Mabele, que ensinava no curso Pedagógico, do Colégio 15 de Novembro, em 1961, e que nos honra com a leitura desta coluna, assiduamente).

*Neide de Oliveira Tavares é jornalista, escritora, historiadora, cronista e professora. Crônica transcrita do Livro "Lembranças de Garanhuns e outras mais". Ano 2014.

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