domingo, 17 de abril de 2022

Uma barbearia diferente

Era costume se dizer que nas barbearias do meu tempo, se falava de  todo o mundo! Todas as notícias, sem viso de verdade, dizia-se que começavam nas barbearias. Os boatos, tinham curso rápido e se transformavam facilmente em histórias fantasmagóricas. Enquanto o oficial de barbearia executava o seu trabalho, as histórias se iniciavam e havia também assíduos frequentadores, que ali apenas faziam "plantão", para saber de  alguma coisa ou trazer novidades.

Uma barbearia, que fugia ao lugar comum das outras, era aquela em  que trabalhava José Francisco de Souza (foto), na Rua do Recife, nas proximidades da Praça João Pessoa, ponto de reunião dos estudantes mais adiantados do  Ginásio Diocesano, do 15 de Novembro e depois do Colégio Martins Júnior, educandário pertencente ao Prof. Manoel Clementino de Araújo, nosso professor de português, no Diocesano.

José Francisco, trabalhava e conversava. Tinha prosa fácil e desde moço, demonstrava alguma cultura e conhecimentos, aprendidos à sua  própria custa. Lia os clássicos, até a literatura comum.

Quase todos os que frequentavam o seu "salão", lhe emprestavam livros e nas suas conversas, gostava de empregar com acertos os vocábulos. Era um perfeito autodidata e seu sonho parece-me, que se chegou a  realizar, quando obteve, "provisão de advogado" e foi nomeado "Advogado dos presos pobres" da Comarca de Garanhuns, ou melhor "advogado de ofício".

José Francisco deu ânimo a muitos dos nossos companheiros para  que estudassem. No seu "salão", repitamos, Antonio Viana de Siqueira,  depois Juiz de Direito, recitou a fez versos, Efenor Alves Correia, procurava discutir assuntos de Geografia (chegou a decorar quase um compêndio de Corografia do Brasil, do Prof. Mário da Veiga Cabral); Carlos Araújo, Joaquim Moreira de Melo, Rui Maciel, e quase todos nós fazíamos do "Salão" de José Francisco, a sede natural das nossas competições literárias.

Inteligente, capaz, José Francisco, antigo oficial de barbeiro, é sem dúvida, um dos integrantes dos nossos intelectuais de Garanhuns. Que o  seu exemplo sirva para amenizar esta imensa planície que a massificação do ensino a transformou em árido deserto de mediocridades. (Fonte: Alfredo Vieira | Garanhuns do Meu Tempo | Ano 1981).

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