sábado, 7 de maio de 2022

Cultura: dividindo para somar espaços

Cerimônia de lançamento do livro, Descaminhos da Universidade, em Garanhuns, 1981, tendo à mesa o então prefeito Ivo Amaral (d), o jornalista Joezil Barros, presidente da Associação da Imprensa de Pernambuco - AIP, e o advogado Osvaldo Medeiros

Manoel Neto Teixeira

Este lançamento não significa uma festa particular, uma louvação ao autor. Para mim, representa muito mais: é uma festa do espírito - porque da educação e da cultura. Diria melhor: é a festa do Diocesano; logo, de toda Garanhuns. Aqui, neste instante, prefiro transmudar-me numa simples partícula daquele corpo maior, grandioso, que simboliza os próprios desígnios de  um "templo sagrado, de luz e saber": o desdobramento aperfeiçoado da educação e da cultura.

Permitam-me, sem modéstia, dizer que nesta hora, quando se comemora os 66 anos de fundação do Diocesano, não poderia ser mais gratificante, para mim, poder oferecer o meu trabalho que ponho às mãos dos senhores, como um contributo pessoal destinado a, não somente fazer também a festa, mas sobretudo chamar a atenção para o difícil problema da educação em nosso país, especialmente no Nordeste, em Pernambuco. Este o principal motivo que me levou a escrever Descaminhos da Universidade.

Dizia o romancista Guimarães Rosa, que, "Viver, é perigoso". Quis o notável autor do clássico Grande Sertão Veredas, refletir sobre o drama maior, que é o drama da própria vida, desde o nascimento até o instante final, quando não mais  respiramos. Mas, no palco da vida, há os que sofrem mais; e essa dor se nos apresenta mais dolorida quando advém de aspectos sociais, econômicos e culturais. Das chamadas, no caso brasileiro, desigualdades que repercutem no plano da educação e da cultura; com efeito, a qualidade de vida do homem nordestino, "que  é antes de tudo um forte", diria Euclides da Cunha.

É preciso que se cumpra o dever de propor a discussão de  temas dessa magnitude. Sem educação de base, sem a preparação da sua gente, não pode um povo aspirar dias melhores. Já  chamou-se a atenção para o fato de que, sem a melhoria do  homem, do nível de vida, quer do ponto de vista material, quer do cultural, nossas instituições resultam comprometidas, frágeis, sem rumos e objetivos certos e definitivos. Admite-se que mergulhamos numa defasagem de quase cem anos em relação a outros países, colonizados quase à mesma época que o Brasil. E  quais os motivos desse atraso, desse descompasso?

Aqui, nessa imensa parte das Américas, dos trópicos, tão  bem estudadas na obra do mestre Gilberto Freyre, parece não  encontrar eco o princípio defendido pelo cientista Pasteur, segundo o qual, "Os ideais da ciência são iluminados por reflexos do infinito". Ao contrário, avultam os anti-reflexos, com o quase abandono das artes e da própria ciência. Não fossem os Adelmar da Mota Valença, dotados de grande visão humanística, certamente não estaríamos aqui, hoje, reunidos nesta fraternal comemoração.

Não fossem homens dessa estirpe - infelizmente são poucos - praticamente inexistiam padrões razoáveis de educação básica, n'alguns recantos do nosso território, como é o caso de  Garanhuns. Realidade que se reflete nas próprias estatísticas oficiais, pelas quais sabemos que os estabelecimentos particulares são responsáveis por quase 80 por cento da escolaridade, nos  três níveis, no Brasil. Esperássemos nós somente pelos programas oficiais, e teríamos o nosso povo arruinado, mais atrasado ainda, sem dar os primeiros passos em direção ao desenvolvimento, aos níveis de civilização.

Nessa participação, não poderíamos obscurecer o braço forte dos colégios Diocesano, as congregações jesuítas, os Liceus e as Pontifícias Universidades Católicas. Enquanto outros países - o Japão é um grande exemplo - investiram maciçamente na educação do seu povo, hoje transformados em grandes potências do globo, no Brasil, ao contrário, educação é produto secundário, os recursos para esse setor ficam em segundo plano. A propósito, travou-se recentemente uma batalha, quando da distribuição orçamentária para 1982. A fatia para o Ministério da Educação e Cultura foi podada pela  vontade isolada de um só indivíduo, contrariando os interesses maiores do povo.

Então, que país é esse? Estamos andando no rumo certo? Daí os Descaminhos da Universidade. Urge, pois, uma completa reformulação em todo sistema educacional brasileiro, a partir, evidentemente, da  mentalidade com que os dirigentes encaram esse problemas. E que tais mudanças venham a tempo, até porque, como sentenciou Montesquieu, há perigo de que "As leis inúteis enfraquecem as leis necessárias".

Pascal, outro grande pensador francês, para quem o "coração tem razões que a própria razão desconhece", costumava dizer que: "Na medida em que se tem mais espírito, acha-se que mais homens originais. As pessoas comum, ao contrário, não encontram diferença entre os homens". E Garanhuns, terra de gente brava e inteligente, que não se curva aos caprichos de ninguém, sabe, com justiça, distinguir esta originalidade, justamente porque sempre foi caracterizada pela grandeza de espírito dos seus filhos mais ilustres.

Seria enfadonho enumerar aqui tantos filhos que engrandeceram e engrandecem a história desta terra, tão bem ressaltada nos versos dos seus melhores poetas - e são muitos -, bem assim, na prosa-poética de um Waldimir Maia Leite; na comunicação fluente e espontânea e na oralidade de um José Inácio Rodrigues; a eloquência de um José Francisco de Souza e de um Osvaldo Medeiros; a comunicação de um Humberto de Moraes, este gigante do jornalismo no Agreste Meridional; a participação efetiva no processo educacional e intelectual das  novas gerações, de um Erasmo Vilela, Luzinette Laporte, Almira e Arlinda Valença, Isaura Medeiros, Levino  Epaminondas de França, Gonçalves Dias, Maria José Miranda, Maria José Ferreira, Manoel Lustosa, Alcione Tadeu, Lourdes Moraes, Rilton Rodrigues, Lenice Falcão, Elzira Pernambuco Lustosa, entre tantos outros educadores, alguns dos  quais já substituídos pelo processo natural da vida. E a Garanhuns inteligente e cultural de um Raimundo de Moraes, Alfredo Vieira, Luiz Henrique, Souto Dourado, Walter Vieira, Antonio Adson, Antônio Cardoso, Gladstone Vieira Belo, João Marques, Zeneide Barbosa, Marcílio Viana Luna, Venceslau Tavares, Jodeval Duarte, Alba Pereira Carvalho, Paulo Faustino, Ulisses Pinto, Cláudio Moraes, Givaldo Calado, Pedro Jorge Valença, entre tantos outros. É a Garanhuns dos grandes médicos - Luis Lessa, Pompeu, Godofredo, José Couto -; e dos grandes administradores - Francisco Figueira, Aloísio Souto Pinto, Souto Dourado, Amílcar da Mota Valença e Ivo Tinô do Amaral, este último, grata revelação de homem público e de realizador.

É Garanhuns dos homens simples, hospitaleiros, generosos, trabalhadores. Dos homens de negócios, no comércio e na  indústria, cada um, a seu modo, contribuindo para o engrandecimento da terra. São os Júlio Jacinto, os S. Moraes, os Ferreira Costa, Valdemar (Vavá) Jacinto, Luciano Oliveira, os Alves de Lima, Luiz Cordeiro de Barros, os Cândidos, Domingos Diletieri, entre outros. É Garanhuns da minha família, aqui representada na presença dos meus queridos pais - Henrique José Jacinto / Alzira Alves Teixeira -, os quais simbolizam, para mim, neste momento, todos os pais da minha terra, aos quais rendo minhas homenagens.

Sem a participação desses e de outros não mencionados, enfim, de toda a comunidade, desde o simples engraxate ao bravo homem do campo que, com dose de heroísmo, manda os filhos estudar no Diocesano, no Santa Sofia, no Quinze de Novembro, não seria possível festejarmos nesta hora. Entendo que o  espaço que hoje se abre para esta festa, a festa do espírito, como diria o mestre Pinto Ferreira, cujo prefácio ao meu livro, é dessas coisas que extrapolam as minhas próprias virtudes, não é o espaço exclusivo do autor. Prefiro, por justiça, dividir esse  espaço com cada um dos senhores aqui presentes, com cada garanhuense. Queria mesmo poder, nesta hora, vestir-me de colibri e devolver, por gratidão, parte desse espaço aos jardins de Garanhuns, tão bem refletidos nos jardins da história da Praça da Bandeira da minha meninice, da minha adolescência, em cujas gramas costumava rolar, ora brincando, ora nas pelejas com meus não menos travessos coleguinhas inesquecíveis; devolvo-o às dálias; reparto-o com os pássaros que enchem de melodia os seus parques - meu querido Pau-Pombo, Euclides Dourado, Magano, Monte Sinai; divido-o com as suas fontes d'água, suas  ladeiras, aquela longa mais nunca cansativa ladeira que demanda ao Diocesano; reparto esse espaço com as suas Igrejas, seus  Mosteiros; com a memória dos seus heróis, mortos e vivos.

Garanhuns, minha querida Garanhuns, muito obrigado.

(Discurso no lançamento do livro Descaminhos da Universidade, de nossa autoria, em janeiro de 1981, no Centro Cultural Alfredo Leite Cavalcanti, Garanhuns). Publicado no jornal O MONITOR de 17 de janeiro de 1981.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"Coração de Neon" é aclamado pela crítica em Cannes como o "novo cinema popular brasileiro"

A presença do filme “Coração de Neon” em Cannes, na França, pode estar abrindo uma nova fase do cinema brasileiro. A produção curitibana aca...