terça-feira, 3 de maio de 2022

História de Garanhuns

11º Prefeito de Garanhuns - A ala de oposição lançou como candidato ao executivo municipal, dois valorosos cidadãos, médicos que aqui residiam e clinicavam - O Dr. José da Rocha Carvalho, para prefeito e o Dr. Antonio Borba Júnior, para Subprefeito. A ala dominante vê na pessoa dos candidatos um perigo à sua vitória e lança a candidatura do seu próprio chefe, o Coronel Júlio Brasileiro, que já era deputado estadual, e do Capitão Tomás da Silva Maia, cidadão bem relacionado, aos cargos de Prefeito e Subprefeito, respectivamente.

Realizadas as eleições em 10 de julho de 1916, a apuração teve o resultado seguinte: Para Prefeito o Coronel Júlio Eutímio da Silva Brasileiro, 1.114 votos, e o Dr. José da Rocha Carvalho, 428 votos; para Subprefeito o Capitão Tomás da Silva Maia,  1.117 votos e o Dr. Antonio Borba Júnior, 428 votos; para o Conselho Municipal, Vitorino Alves Monteiro, Azarias Salgado de Oliveira Vasconcelos e Antonio de Barros Moraes Campelo, 925 votos cada um; Joaquim Alves Barreto Coelho, Jácomo de Matos Coelho Sampaio, Francino Correia Caldas e  Francisco de Assis Barbosa, 926 votos cada; Dr. José Antonio da Silva Maciel Júnior, 401 votos; Júlio Tavares de Miranda, 401 votos; José Lídio Guerreiro, 394 votos; Antonio Machado da Silva, 382 votos; Inocêncio Barbosa Frias 368 votos; Sátiro Ivo da Silva, 361 votos; Francisco Vieira dos Santos, 338 votos; Marcionilo Ferreira de Mendonça, Álvaro Brasileiro Viana, Elias Lopes Lima, Joaquim Salustiano Ferreira calado, Avelino Américo da Silva, João Leitão de Albuquerque e Francisco Uchoa de Gusmão, 189 votos cada um, Joaquim van der Linden, 166 votos e Antonio Marques da Silva 161 votos.

A retumbante vitória da ala dominante foi acintosa e extensivamente comemorada por parentes e correligionários do Coronel Júlio Brasileiro, tendo sido, entretanto, anulada as eleições para Prefeito. O orçamento Municipal já era de 40.895 cruzeiros.

Novas eleições foram realizadas para o cargo de Prefeito, à qual concorreu apenas o Coronel Júlio Brasileiro (foto), que não chegou a ser empossado por ter sido feita a apuração em 7 de fevereiro de 1917, quando ele havia sido assassinado em 14 de janeiro daquele mesmo ano.

O assassinato do Coronel Júlio Brasileiro, foi a causa da Hecatombe que  enlutou a cidade e que tão triste memória causa àqueles que leem a história de  Garanhuns. Aquele crime e suas funestas consequências, apesar de já haver sido narrada por cronistas e jornalistas, vamos descrever os acontecimentos, como vimos e como, logo após, ouvimos de pessoas fidedignas.

Para tanto vamos nos reportar a fatos antecedentes. Em 1874, aqui chegou vindo de Bonito, em companhia de seus pais e com a idade de dois anos, aquele que mais tarde seria o Capitão da Guarda Nacional, Francisco de Sales Vila Nova Melo. Filho de pais piedosos cresceu e educou-se nos princípios do temor de  Deus e do amor ao próximo. Aos vinte e poucos anos de idade ingressou na política municipal ocupando vários cargos públicos, desviando-se, porém, vez por outra, dos princípios que fora educado, criando desentendimentos em demais políticos. Não possuía, entretanto, mau coração, ao contrário, ocupava parte do seu tempo disponível em socorrer os necessitados que a ele recorriam, especialmente por meio de subscrições entre amigos, saindo sempre em companhia daquele que para ele apelava. afim de dar mais força à solicitação. Sempre demonstrou possuir a virtude de perdoar e esquecer as ofensas recebidas, sem nunca guardar rancores. Por sua vez, as crianças pobres sempre contaram com sua especial atenção. Pelo Natal conseguia grande número de doações dos mais variados com os quais armava árvore e assim distribuía com elas esses presentes. Gostava de cooperar com as sociedades filantrópicas, tendo fundado em 1907, a Sociedade Mortuária que se extinguiu após a Hecatombe, e, enquanto existiu foi uma utilidade indiscutível, pois deixou de infringir à polícia o constrangimento de populares para a condução de cadáveres de indigentes para o cemitério.

O Capitão Sales era um revoltado com as injustiças dos poderosos contra os fracos, partissem de onde partissem, estava ele sempre disposto a denunciá-los por meio de artigos que publicava nos jornais da capital; até mesmo os abusos das autoridades constituídas não escapavam à sua pena acusadora. Note-se que sendo ele amigo e correligionário do Professor Manoel Jardim, era também compadre e amigo do Coronel Júlio Brasileiro. Com a vitória obtida pelo Coronel Júlio Brasileiro sobre o seu opositor, Coronel Hemetério Souto, nas eleições realizadas em 30 de março de 1912, ficou estabelecido o domínio da política.

Da cidade de Palmares, veio aqui fixar residência um irmão do Coronel Júlio Brasileiro, filho das segundas núpcias do seu pai, Coronel Antonio Cesário da Silva Brasileiro, Eutíquio Brasileiro.

Era ele um rapaz solteiro, moço e elegante, que fora criado por seu cunhado, o Dr. Leopoldo Lins, chefe político de grande prestígio naquele município. Tudo porém, indica que Eutíquio Brasileiro tenha sido "enviado" para esta cidade devido aos seus desregramentos em Palmares, uma vez que aqui estaria sob as vistas do seu irmão mais velho a quem devia temor e respeito. Todavia não sortiu o efeito desejado essa resolução do Dr. Leopoldo Lins, pois poucos dias depois de sua chegada, Eutíquio seduziu a filha única de uma viúva pobre, abandonando-a, pouco depois, ao meretrício. O Capitão Antonio Paes da Silva Rosa Filho, sobrinho do Coronel Júlio Brasileiro, por ser filho de uma de suas irmãs, era tido como um cidadão - realmente o era - de ótimas qualidades e muito útil ao desenvolvimento social da cidade. À chegada do seu tio Eutíquio, porém, trouxe-lhe maléfica influência. O Capitão Antonio Rosa, que sempre fora cumpridor dos seus deveres no cargo de Subdelegado de polícia, passou a tergiversar comentando arbitrariedades que, além de incompatibilizar com seus  correligionários, davam lugar a que o Capitão Sales o censurasse através de artigos na imprensa. Sendo essas as principais razões da cisão verificada na ala política dominante.

A retumbante vitória obtida pelo Coronel Júlio Brasileiro, veio ainda mais incentivar o seu irmão Eutíquio na prática de desregramentos, já agora contando com o apoio dos seus sobrinhos Antonio Rosa e Álvaro Brasileiro Viana, que até então tinham ótimas condutas e muitos serviços prestados ao desenvolvimento social com a fundação e manutenção de sociedade de cultura. Por sua vez, o Capitão Sales Vila Nova, continuou a sua campanha jornalística acusando, não só o comportamento  desabonador de Eutíquio e Álvaro, como também a falta ao cumprimento do dever de Antonio Rosa, que nenhuma medida tomava para coibir aquelas irregularidades, na qualidade de Subdelegado que era.

Contrariados com aquelas acusações, Eutíquio, Álvaro e Antonio Rosa, intimaram o Capitão Sales a parar, de uma vez, com aqueles artigos, sob pena de aplicarem-lhe uma surra de "cipó de boi" - o instrumento de castigo mais evitante da época.

Não lhes deu ouvido porém, o articulista e, sabendo da escendência que tinha o Coronel Júlio Brasileiro sobre o seu irmão e sobrinhos, escreveu novo artigo, apelando para aquele afim de por côbro aos rapazes e, ao mesmo tempo, o responsabilizava por qualquer mal que lhe viesse acontecer. Entretanto, pelas 22 horas da sexta-feira, dia 12 de janeiro de 1917, quando se dirigia para a  sua residência, localizada na Rua Cabo Cobrinha atualmente, - onde continuou residindo até pouco tempo, quando faleceu. - ao atingir o largo existente na desembocadura dessa rua com a atual Melo Peixoto, foi o Capitão Sales agarrado e dominado por seis indivíduos mascarados e impiedosamente surrado não obstante os seus gritos de pedidos de socorro. Chegando à sua residência recebeu de sua genitora, com quem morava pois ainda era solteiro, os curativos necessários.

No dia seguinte, sábado, foi liquidar negócios relativos a Bilhetes de Loteria que vendia, para posterior pagamento, e, na feira, a todos que o interrogavam sobre o acontecido, mostrava, publicamente as costas repletas de esquimoses. No outro dia - domingo - viajou, pelo trem do horário, com destino ao  Recife afim de se encontrar com o Coronel Júlio Brasileiro. Aí chegando, facilmente o encontrou sentado em companhia de dois amigos e correligionários, um dos quais era o Capitão Azarias Salgado de Oliveira Vasconcelos, em volta de uma mesa que, no Café Chile, costumavam colocar em frente ao estabelecimento situado junto ao edifício do "Diário de Pernambuco".

As condições do encontro mais estimularam às intensões do Capitão Sales, que deve ter pensado: "enquanto ele surrado aviltantemente sentia  doerem-lhe as costas, aquele para quem  apelara a responsabilizara e que com uma  simples  admoestação ao irmão e sobrinhos, poderia tudo ter evitado, ali estava a  palestrar e divertir-se em companhia de amigos". Então, de revólver em punho, aproximou-se rapidamente do grupo e disparou à queima-roupa, vários tiros no  Coronel Júlio Brasileiro, procurando evadir-se em seguida, para os lados do Pátio do Paraíso, tendo sido porém, interceptada sua fuga por populares e logo pela polícia, que o prendeu, evitando assim um possível linchamento. 

Daí foi conduzido para um quartel da polícia que então existia na rua do Imperador, onde ficou detido com as regalias a que tinha direito como oficial da Guarda Nacional.

O Coronel Júlio Brasileiro, mortalmente ferido, dirigiu-se cambaleante em direção ao Hotel Lusitano em cuja calçada caiu falecendo poucos minutos depois. O proprietário do Hotel Universo, na rua Diário de Pernambuco, muito seu amigo, cientificado do ocorrido, fez transportar o cadáver para o seu estabelecimento e improvisou, no salão principal do mesmo, a câmara ardente, providenciando ainda, tudo o que se fazia necessário à remoção do corpo para esta cidade, inclusive fretando um trem especial, que o conduziu para Garanhuns, onde  chegou no dia seguinte, segunda-feira - 15 de Janeiro de 1917 dia dos trágicos acontecimentos que enodaram a história deste querido torrão.

Naquele dia fatídico, pela manhã bem cedo, a família Brasileiro recebeu os telegramas que comunicavam a triste ocorrência da véspera e se reuniu em conselho. A viúva, dona Ana Duperron, declarou que não derramaria uma só lágrima por seu falecido marido enquanto não fosse vingada a sua morte. Os demais membros acreditavam que o Capitão Sales tão acostumado a perdoar e esquecer as ofensas, muito embora nenhuma delas se tratasse de espancamento, talvez não levasse a sério aquela surra, a ponto de exercer tão terrível vingança. Firmaram-se então, a ideia de que teria sido ele apenas um instrumento dos adversários do chefe da família. Assim sendo garantiram à viúva que logo choraria a morte do marido pois esta seria tremendamente vingada. Imediatamente telegrafaram a outro sobrinho do falecido, de nome Alfredo Brasileiro conhecido por Doca Viana - irmão de Álvaro Viana, que então assistia na Fazenda do seu tio em Brejão, anunciando o acontecimento enquanto o convocavam acompanhado de homens armados. Reuniram ainda vários desordeiros e capangas que, armados de rifles, dirigiram-se à casa comercial dos irmãos Júlio e Argemiro Tavares de Miranda que, avisados em tempo, fecharam o estabelecimento e esconderam-se; mesmo assim os atacantes fizeram vários disparos nas portas que se achavam fechadas.

Seria aproximadamente 7h30m e achava-se o rabiscador destas linhas da História de Garanhuns (Alfredo Leite), cumprindo seu dever de empregado da casa comercial do Major Sátiro Ivo da Silva, quando juntamente com os demais companheiros de trabalho, ouviu as descargas acima mencionadas e viu uma pessoa que vinha correndo avisar ao Major Sátiro Ivo que o grupo pretendia matá-lo. E, realmente, só tivemos tempos suficiente para fechar, apressadamente, as portas do estabelecimento e de fugirem os demais empregados pelas portas dos fundos, ficando apenas o autor desta história, seu cunhado Lindolfo Marques Cavalcanti, o Major Sátiro Ivo e o seu filho, então criança de poucos anos - Ivo Júnior, que ali havia chegado por acaso, poucos momentos antes. E logo gritos e coronhadas de rifles anunciavam a chegada da horda que, em epítetos injuriosos e palavras de baixo calão, convidava Sátiro Ivo a sair para a rua. Lá dentro nos conservamos em silêncio, e Sátiro Ivo, o único que estava armado com uma pistola Mauser, entrincheirou-se atrás de um fardo de algodão, apontando sua arma para a porta que tentavam derrubar. Essa situação foi salva por José Lins Cavalcanti, primo legítimo de Álvaro Viana e guarda-livros da firma comercial de Sátiro Ivo, que ali chegando, apressadamente garantiu, sob palavra, que Sátiro Ivo havia fugido pela porta traseira, com os empregados. Às palavras do primo não puseram dúvida, dali se retiraram e se dirigiram para a  casa do médico Dr. Borba Júnior.

Passada essa situação, Sátiro Ivo incumbiu-me de ser portador de  dois telegramas, uma para o chefe de polícia pedindo urgentes providências, e o outro para o seu sogro, residente em Águas Belas, comunicando a situação, e mais um cartão endereçado ao tenente Antonio de Paula Pimentel Meira Lima, delgado de polícia do Município, pedindo garantia de vida.

Na ocasião em que estava me desincumbindo dos telegramas, vi juntamente com o telegrafista, pelas frestas de uma das  venezianas de casa onde funcionava o telégrafo, na atual Avenida Santo Antonio, um grupo de capangas dirigido por Antonio Rosa, que conduzia para a cadeia pública o Dr. Borba Júnior, com a cabeça e o paletó ensanguentados, em consequência de uma paulada que lhe havia dado com uma caçarola, o capanga apelidado de Joaquim Pai D'égua, um dos convocados pelos sobrinhos do Coronel Júlio Brasileiro. Por não terem morto logo o mesmo por uma repreensão do capitão Antonio Rosa ao referido "Joaquim Pai D'égua", pela sua atitude, tudo indica que não era essa a sua pretensão quanto ao distinto médico.

Desincumbido dos telegramas, procurei o tenente Meira Lima a quem entreguei o cartão, que depois de o ler, disse-me não ser possível dar qualquer garantia a Sátiro Ivo, pois era muito reduzido o número de soldados do destacamento pelo que nada podia fazer contra aquela "cabroeira desenfreada"; disse mais que era aconselhável a sua fuga ou esconder-se em lugar seguro.

Por esse alvitre do delegado de polícia se verifica que o mesmo não tinha  qualquer má intenção. De volta ao estabelecimento, encontrei muitos empregados que tinham vindo de uma  bolandeira localizada na Rua 7 de Setembro, também de propriedade da firma.

Cientificado da atitude do delegado de polícia, ficou Sátiro Ivo, preocupadíssimo e, ao mesmo tempo, indeciso sobre como deveria proceder. Os empregados que encontramos no estabelecimento se prontificaram a defendê-lo até com  o sacrifício de suas próprias vidas, porém, para isto seria necessário armamento, que não possuíam e assim sendo, foram eles se retirando tendo ficado apenas Júlio Ramos que conosco formavam quatro, mas somente Sátiro Ivo estava armado com a já mencionada pistola. Começamos a deliberar sobre o que deveríamos fazer diante de uma situação perigosa para todos. Paredes-meias com o  estabelecimento, havia um prédio pertencente a dona Maria Ivo, mãe de Sátiro Ivo, cujo oitão ultrapassava a parede traseira daquele ocupado pelo estabelecimento do filho. A dependência formada por essa saliência tinha comunicação com o prédio do estabelecimento e estava ocupada com silos destinados à guarda de cereais e nessa ocasião estavam cheios de milho.

Por trás dos silos havia um tabuado mais baixo que eles, ótimo esconderijo que também, em último caso, serviria de boa trincheira.

Foi ali que, com a aprovação de todos nós, escondeu-se Sátiro Ivo, tendo alcançado o seu esconderijo por meio de uma escada que logo foi retirada do  estabelecimento. Após isso, fechamos a porta de comunicação e abandonamos o local, eu e meu cunhado Lindolfo, dirigindo-se às nossas residências afim de  fazermos ligeira refeição, tendo ficado Júlio Ramos de estreita em um ponto afastado do estabelecimento, até quando um de nós o viesse render.

Ao aproximar-se de casa, na Avenida José Leitão, 112, vai passando Alfredo Brasileiro Viana (Doca Viana) que do meio da rua me cumprimentou, vindo de Brejão acompanhado de quatro homens armados de rifles, um dos quais o façanhudo cangaceiro "Vicentão".

Feita a ligeira refeição e nada encontrando com que me armar, volto, assim mesmo, para render o companheiro na vigilância do estabelecimento, porém no meio do caminho o encontrei desapontado, pois dona Clotilde, esposa do Major Sátiro Ivo, convencida pelo Tenente Meira Lima de que na cadeia seria fácil garantir a todos e lá encontravam os demais ameaçados, mandou-lhe abrir a porta o que Júlio Ramos obedeceu muito a contragosto, tendo ele e o Tenente delegado, além de outras pessoas, conduzido Sátiro Ivo para a Cadeia Pública. Também, desapontado, fui à cadeia onde encontrei todos os que horas mais tarde seriam vítimas indefesas da ignominiosa traição adredemente preparada. Façamos um pequeno retrospecto afim de melhor entendermos os fatos que se desenrolaram.

O delegado de polícia, algum tempo depois que lhe entreguei o cartão de Sátiro Ivo, dirigiu-se à casa da viúva do Coronel Júlio Brasileiro, onde encontrou o Juiz de Direito da Comarca, Dr. José Pedro de Abreu e Lima, que acabava de consertar com a família do morto, os planos para a vingança. Consistiam esses planos em, dada a dificuldade de serem assassinados todos os que a família Brasileiro desejava, por se terem ocultado, e como o tempo urgia, pois pelo trem do horário chegaria um reforço de soldados, o delegado insinuaria as famílias dos que seriam vítimas, que se recolhendo estas à cadeia pública, ela assumiria a responsabilidade da  garantia das suas vidas e, com a chegada do reforço que estava esperando, tudo se acalmaria e os garantidos poderiam regressar às suas residências incólumes. A verdade, porém, era outra: quando todos lá estivessem a cadeia seria atacada sem defesa, pois se presumia que a  guarda, composta apenas de quatro soldados e um cabo, intimados por um número muito maior de cangaceiros se renderia facilmente. Ignoravam eles, entretanto que aqueles quatro soldados seriam os dignos comandados de um herói. O Tenente Meira Lima, por precaução, fazia retirar grande parte de munição da cadeia para ainda mais enfraquecer a guarda no caso de qualquer resistência por parte dela. Exposto o ignóbil plano ao Tenente-delegado, de início ele não quis concordar, porém os meios de persuasão apresentados pelo Juiz de Direito e por Antonio Padilha, oficial reformado e amigo íntimo da família, acabou concordando e tratou logo de por  em execução o diabólico plano. Foi à  cadeia e de lá fez retirar quase toda a munição; deu ordem ao cabo comandante da guarda para que desse valimento a todos aqueles que o procurasse e os fizessem recolher ao quarto destinado à prisão de soldados, porém sem armas. Tomadas essas providências, procurou a português Manoel Bento Dantas em casa de quem sabia estarem refugiados os irmãos Tavares de Miranda e explicou-lhe que  não dispondo de bastante soldados para a garantia de homiziados em casas particulares mas que os disponíveis eram suficientes para garanti-los na cadeia pública, até a chegada do reforço que estava esperando pelo trem do horário.

Disse mais que na cadeia ninguém penetraria "sem passar por cima do seu cadáver" e que como ele sabia, que os irmãos Miranda estavam em sua  casa, a família Brasileiro também poderia saber e pretender atacá-los ali mesmo, o que deveria ser evitado.

Todos esses argumentos ditos em tom tão convincentes, por uma autoridade constituída, e de tão grande responsabilidade, convenceram o português que logo concordou em juntos falarem aos irmãos Miranda, expondo o Tenente os seus traiçoeiros planos, agora ajudado pelo próprio Manoel Dantas.  Depois de todo plano explicado pelo Tenente-delegado, discordou dele Argemiro Miranda, porém o seu irmão Júlio de Miranda admitiu e, tomando o partido do Delegado, procurou convencer o seu irmão argumentando que a casa do amigo Manoel Dantas poderia ser atacada.

Esse argumento pesou na consciência de Argemiro que terminou concordando. Da casa de Manoel Dantas, na Rua Dantas Barreto, partiram os quatros para a cadeia pública que era localizada, convém que se saiba, na atual Praça Irmãos Miranda, e ao passarem em frente a uma das casas da rua Barão do Rio Branco, onde morava uma família parenta da mulher de Argemiro de Miranda, a senhora dona de casa lhe perguntou o que estava se passando e para onde iam, ao que lhe respondeu Argemiro que seguia com o irmão para o matadouro afim de serem sacrificados. Já na cadeia, os Irmãos Miranda, muito fácil se tornou ao Tenente-delegado a condução do Professor Manoel Jardim e do Tenente-coronel Francisco Veloso da Silveira que deles eram cunhados, bem como a persuasão da dona Clotilde, que com ele foi retirar o seu marido, Sátiro Ivo, daquele esconderijo tão seguro. Recolhidos todos à cadeia, foi o tenente Meira Lima à casa da família Brasileiro dar contas de bom desempenho das suas traiçoeiras maquinações, porém lá chegando encontrou um ambiente mais propício às vítimas pois o padre Benigno Lira, empregara todos os reforços no sentido de evitar a catástrofe, não somente como sacerdote, mas também como amigo que era da família. Com rogos e argumentos humanitários, havia o padre Lira conseguido dos sobrinhos e irmão do Coronel Júlio Brasileiro, a promessa de desistência pretendida vingança.

E tudo indica que eles estavam inclinados a cumprir a promessa feita ao  bondoso Padre porque, quando cerca das 14h30m para 15h, chegou em  casa da família Brasileiro um velho inimigo das famílias Jardim e Miranda, Agostinho Jorge da Costa, conhecido por Jorge Vaz, acompanhado de um grupo de oito ou nove cangaceiros armados, sendo recebido pelo Capitão Antonio Rosa, às ordens de quem se declarou, o qual lhe disse haverem desistido da vingança conforme promessa feita ao Padre Lira. Cientificado dessa resolução da família enlutada, o diabólico Jorge Vaz exaltou-se e em termos os mais estimulantes declarou, entre outras coisas, que eles eram uns covardes, que o sangue derramado de Júlio Brasileiro estava clamando por vingança e que apesar de disporem dos elementos necessários, eles se acovardaram, e que ele, Jorge Vaz, iria  somente com seus homens vingar a morte do Coronel Júlio Brasileiro, pois não se acomodava com a covardia dos seus sobrinhos. Essas estimulantes palavras influenciaram muito Antonio Rosa, e reacendeu-se a fogueira de ódio e paixões que estava grandemente amortecida, com a intervenção do Padre Lira. Nessa ocasião, mesmo com a quebra de promessa, resolveram efetuar os planos de vingança assassinando aqueles a quem atribuíam a culpa da morte do chefe da família Brasileiro, com exceção do Dr. Rocha Carvalho que se encontrava fora da cidade. Também se pode presumir ter sido feita ao Padre Lira, a promessa de desistência da vingança o fato de não disporem de tantos homens quantos julgavam necessário ao ataque à cadeia, pois quando o fizeram foi com 22 e esse número foi conseguido com os trazidos por Jorge Vaz. Fosse como fosse, o caso é que acertaram todo o plano para o ataque à cadeia ficando o tenente reformado Padilha encarregado  da estratégia e ao cangaceiro Vicentão, dado o comando do Bando, tendo-lhe sido recomendado que somente quando se esgotassem os meios suasórios para a rendição da guarda, é que deveria abrir fogo, depois disso morresse quem morresse, não deviam escapar nenhum daqueles que estavam indicados para a vingança. Seriam então 15h30m, quando saiu pelo portão da casa da viúva Júlio Brasileiro, portão que dá para a Rua Dr. Severiano Peixoto, o grupo sinistro, com  posto de vinte e três sicários inclusive o Tenente Padilha, contados por Domingos Deletieri que, da casa do seu tio Nicolau, casa que ficava defronte ao portão, tudo observava por uma das frestas de uma veneziana. Ia o grupo sem ordem e apressadamente seguindo por traz da Avenida Santo Antonio, rumo à cadeia aonde chegou pela parte dos fundos e aí se dividindo, cercou-a tomando posição. Os sobrinhos e irmão do Coronel Júlio Brasileiro foram depois se postar no oitão da Igreja Presbiteriana aguardando os acontecimentos. Conforme instruções recebidas, Vicentão dirigiu a fala ao comandante da guarda dizendo que nada tendo o grupo contra a polícia e somente contra aqueles que estavam lá dentro, dali se retirasse som os seus soldados, pois de qualquer modo os atacaria. O Cabo Antonio Pedro, apelidado por "Cabo Cobrinha", era o comandante da guarda e lhe respondeu que aqueles cidadãos estavam sob a sua proteção e garantia e além de não os entregar, somente com ele morto entrariam na cadeia. Retrucou Vicentão que ele, Cobrinha e os demais soldados, eram moços de futuro e além disto era ele pai de família e precisa criar os filhos, portanto abandonasse a posição.

Respondeu-lhe o "Cabo Cobrinha" que acima de tudo estava no cumprimento do dever e que ali só entrariam passando por cima do seu cadáver. "Se entra ou não se entra nessa meleca", vociferou Vicentão e fazendo eco a essas palavras disparou o seu rifle contra o Cabo Cobrinha, atingindo-o mortalmente, mas foi também atingindo e mortalmente ferido, por um tiro certeiro do fuzil do cabo Cobrinha, disparado antes de cair agonizante. Postos fora de combate tão rapidamente, o comandante da guarda e o cabecilha do bando, assumiu a direção do ataque o Tenente Padilha que até então tinha ficado à parte. Travou-se nessa ocasião um tiroteio que durou cerca de 20 minutos. Os  soldados resistiam valentemente, revidando às descargas que vinham de fora.

O quarto onde se encontravam aqueles que aceitaram confiantemente as  "garantias" oferecidas pelo delegado de polícia, Tenente Meira Lima, que nem ao menos teve a dignidade de estar presente mesmo para aparentar uma rendição ao grupo atacante. Tinha uma janela um  óculo na sua parte traseira para melhor arejamento do recinto. Essa janela foi visada por alguns dos sicários que se esforçavam para o óculo afim de melhor alvejarem aqueles que se encontravam no interior.

Entretanto a referida janela era muito alta e somente por meio de uma  escada poderia o óculo ser alcançado. A escada foi fornecida pelo carcereiro da cadeia, José Rodrigues de Freitas, conhecido pelo apelido de "Dudé" que de certa distância verificara a dificuldade dos capangas, sustentados uns pelos os outros numa tentativa vã de conseguirem seus intentos. Colocada a escada, por ela subiu um ex-soldado cognominado de "Caju" que pelo óculo da janela alvejou, à queima-roupa, um ou dois cidadãos que dentro estavam.

Os recolhidos, armados de revólveres e pistolas que por feliz lembrança das suas famílias lhes haviam sido enviado ocultos sob guardanapos nas bandejas que receberam com merendas, não esperavam ser atacados por aquela parte, e somente depois de alvejados começaram a revidar os tiros. Livres por aquele lado, agora era a porta do quarto que estava sendo forçada pelos assassinos que, tendo vencido a resistência dos quatro soldados, então agonizantes, procuraram derrubá-la.

Por alguns instantes os que se encontravam no interior do quarto ainda contiveram a invasão, porém a munição era pouca e tendo se esgotado foi, finalmente, o quarto invadido e iniciada a chacina.

Foram os tiros de rifle à queima-roupa, os apunhalamentos, os esmagamentos de  crâneos a coice de rifle, os saques e as decepações de dedos para deles serem retirados os anéis como foi feito no cadáver do major Sátiro Ivo. Argemiro de Miranda logo que a porta cedeu, saltou no meio da sala onde apanhou uma arma abandonada e com ela procurou vender caro a sua vida ou conseguir dali sair. Ao chegar à porta da cadeia, porém, foi atingido por uma descarga no peito, caindo agonizante a dois ou três metros de distância da    porta da cadeia. Um seu filho ainda criança que havia se aproximado da cadeia, ao ver o seu pai moribundo    correu para ele e com quem se abraçou, tendo ficado ao seu lado até a remoção do cadáver. Os bandidos respeitaram a sua inocência  e nenhum mal lhe fizeram.

Luiz Gonzaga, jovem, noivo, que ao recinto tinha ido afim de confortar o seu tio, professor Manoel Jardim e que tinha ficado incólume aos tiros, foi miseravelmente e vagarosamente sangrado aos gritos de "mate-me logo  pelo amor de Deus". Creio que por Jorge Vaz, rancoroso inimigo de toda a sua família. O irmão do rabiscador desse pouco da História de Garanhuns, Apolônio Leite Cavalcanti, por um triz não foi encontrado na cadeia por ocasião do ataque, aonde tinha ido na esperança de convencer o Major Sátiro Ivo de quem era amigo toda a família para ali se retirar em sua companhia, pois de acordo com as suas observações sobre o movimento nos últimos momentos na casa da viúva, que de certa distância espreitava concluiu que devia tomar atitude afim de  salvar, pela fuga, a vida do amigo. Sátiro Ivo, porém, não quis concordar com as razões apresentadas por Apolônio, dizendo não  ser possível lhe  acontecer qualquer dano, visto que se achava garantido pelo Delegado de Polícia e que o mesmo tinha muita responsabilidade. Apolônio verificou a inutilidade de seu esforço em convencê-lo, dele se despediu dizendo que o tempo urgia e que não queria ser apanhado ali. Saiu, e de regresso, ao atingir a esquina do atual edifício do Fórum, viu os cangaceiros que se dirigiam pela atual Rua Maurício de Nassau, ao ataque da cadeia. Consumada a Hecatombe com a morte dos recolhidos, de cinco praças e de sete ou oito cangaceiros, chegam à cadeia os três sobrinhos e o irmão do Coronel Júlio Brasileiro, que perto tinha ficado aguardando o resultado do ataque.

Antonio Rosa, deu ordem para ficar uma guarda de sicários na cadeia, mandou por em liberdade dois detentos, um dos quais era conhecido "Zé de Naquincha", que tinha do cárcere comum, com armas que lhe haviam sido fornecidas, ajudando no ataque, e para que os cangaceiros feridos fossem transportados para a casa da viúva de Júlio Brasileiro, afim de receberem os primeiros curativos feitos por José Correia da Rocha, após o que retirou-se com o seu irmão José Rosa, seu primo Álvaro Viana e o seu tio Eutíquio Brasileiro, voltaram os quatro a passos moderados, cada um com um rifle na mão, e ao passarem pela esquina do prédio onde hoje funciona a "Lojas Paulistas" obliquaram o destino na direção do atual edifício do Bando do Povo e pouco antes de ali chegarem encontraram o Padre Lira que surgira, apavorado, com as mãos na cabeça, exclamando: "Para que fizeram uma miséria desta?" Toma a palavra Eutíquio Brasileiro e lhe responde: "Padre, vá para casa e saiba que bala também fura couro de Padre". O Padre baixou a cabeça e obedeceu... Prosseguiram os quatro pela calçada e mais adiante obliquaram outra vez o destino em direção à casa da viúva Brasileiro, onde entraram. Dando conta da  nefanda missão cumprida, disse-lhe Álvaro Viana: "Pronto tia, agora pode chorar a morte do tio Júlio", pois já foi bem vingada". E, dirigindo-se os quatro para a sala de jantar onde estavam alguns dos sicários, com eles beberam  e dançaram um macabro  sapateado. Pouto tempo depois chegou o trem e nele vieram vinte e dois praças sob o comando do Capitão Theófanes Torres, que se hospedou na residência do Tenente Meira Lima, em frente da qual os soldados ensarilharam as armas. Logo após a chegada do Capitão Theófanes, atendendo o seu chamado para ali se dirigiu Antonio Rosa que é atendido na calçada pelo Capitão, o qual, debruçado em uma das janelas da casa onde se  achava, com ele conversou durante algum tempo, e por ele ficou ciente de todo o ocorrido, inclusive do destino da guarnição da cadeia. Depois de estar a par de tudo recomendou que durante a noite mandasse retirar os cadáveres da cadeia para a igreja, como também fizesse saírem os feridos da casa da viúva Brasileiro. Determinou a entrega dos corpos daqueles em quem fora exercida a vingança às respectivas famílias e que fizesse despistar todos os cangaceiros remanescentes pois no dia seguinte iria proceder contra quem quer que fosse considerado culpado. E assim foi feito. No outro dia estavam estendidos, em  um dos corredores da Igreja Matriz, onde cadáveres de soldados e cangaceiros, que para lá tinham sido transportados na carroça coletora de lixo... Pelas 10h da manhã, seguiram os  préstitos para o cemitério; quatro féretros de uma vez e três de outra. Os cadáveres que estavam na igreja foram conduzidos na mesma carroça até o cemitério e lá foram enterrados numa vala comum. Poucos dias depois, uma força de polícia em diligência, cercou um certo local nas imediações de Itacatu afim de  prender o célebre "Caju", que ali se encontrava homiziado, e como ele tivesse "resistido à prisão" foi morto por uma  descarga de fuzil. Mais tarde, Jorge Vaz foi morto sem se saber, até hoje quem o matou...

No inquérito instalado pelo Juiz de Direito da Comarca de Nazaré da  Mata, bacharel José Ribeiro Pessoa, Presidente da Comissão que para esse fim fora nomeado, pelo Governador do Estado, comissão esta composta também dos bacharéis Severino Tavares Pragana e João Raul Nunes de Melo, Promotor de Palmares e Escrivão da Polícia da Capital, respectivamente, apareceram vários denunciantes tendenciosos que  exageravam demasiadamente os acontecimentos e acusavam cidadãos que  nenhuma culpa tinham tido, chegando vários desses pseodos culpados a sofrerem os vexames de prisões e interrogatórios, como aconteceu com o Capitão Tomás da Silva maia, o qual era acusado de  haver fornecido gasolina para incendiar as casas comerciais ou mesmo toda a  cidade.

José Correia da Rocha morreu na Casa de Detenção do Recife, por ter feito, na casa da viúva Júlio Brasileiro, os primeiros curativos em cangaceiros feridos. Doca Viana também ali finou-se por ter trazido da fazenda do seu tio, aqueles quatro cangaceiros, que depois de os entregar ao seu primo Antonio Rosa, recolheu-se à casa do seu sogro Avelino Américo, não mais dali se afastando.

Entretanto os promotores da chacina, seus arquitetos e responsáveis diretos, mesmo depois de aprisionados, conseguiram provar suas "inocências" e serem postos em liberdade, como foi o caso de Álvaro Viana, por exemplo. Só foi conseguido apurar culpas em Antonio Rosa que se tinha foragido; Caju, que  foi morto e José Correia Rocha, Doca Viana e Joaquim Pai D'Égua e outros reles  cangaceiros e capangas. É bem possível que se o Capitão Antonio Rosa também tivesse sido preso teria conseguido provar a sua "inocência". As artes de "berliques e berloques", são muito influentes e poderosas...

Durante as interrupções causadas pela Hecatombe, o Coronel Joaquim Alves Barreto Coelho (11º prefeito de Garanhuns), na qualidade  de Presidente do Conselho Municipal, administrou o Município.  (Fonte: História de Garanhuns | Alfredo Leite Cavalcanti | Volume II | Garanhuns, Fevereiro de 1973). Foi mantida a grafia da época.                                                              

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