domingo, 8 de maio de 2022

História de Garanhuns

Um "Autêntico Revolucionário" - Quando rebentou, na madrugada de 4 de outubro, a Revolução de 1930, esta não constituiu novidade para os garanhuenses. A cidade, no dia 5, amanheceu cheia de "boatos", tanto assim que "O Jornal", órgão do  Governo local, direção de Clínio Mayrink Monteiro de Andrade e Hibernon Wanderley, noticiara o acontecimento, com editorial sob título: BOATOS! BOATOS! Procurando desmentir as primeiras notícias do  movimento revolucionário. Já o "Diário de Garanhuns", em face de interrupção das comunicações telegráficas, falava com ênfase de que o movimento eclodira no Recife, na madrugada de 4 de outubro, exaltando as  figuras de Siqueira Campos e João Pessoa, mortos anteriormente, na defesa dos princípios defendidos pela Aliança Liberal: Era a queda do Perrepismo (Partido Republicano Paulista).

Mário Sarmento Pereira de Lira (foto), ou simplesmente Mário Lira, tabelião público, era o líder revolucionário de Garanhuns, ao lado de, entre outros, Fausto Lemos, José Gaspar da Silva, Mário Matos, Eurico Pontes de Lira, Reynaldo Alves, Josafá Pereira, João Tude de Melo e muitos outros, que foram aderindo e se tornando nos chamados "autênticos", ou  seja Revolucionários da 1ª hora, que em verdade foram muito poucos.

O deputado Souto Filho, chefe político local uma das eminências do estacismo, se encontrava em Garanhuns, quando a revolução começou e logo ao saber que o Governador Estácio Coimbra abandonara o Palácio dos Campos das Princesas e fugira para Barreiros, no rebocador que também tinha o seu nome, resolveu entregar o Governo Municipal de Garanhuns aos revolucionários, representados por uma Junta Governativa composta por Mário Lira, Fausto Lemos e José Gaspar da Silva. Falava-se também, que o deputado Souto Filho, fora aconselhado por seus amigos, de que qualquer reação seria sufocada, por colunas revolucionárias que avançavam para Garanhuns.

E assim, foi vitoriosa a Revolução de 1930, em nossa cidade, com os  discursos inflamados de Reynaldo Lins, Uzzae Canuto, Josemir Correia e uma séria infindável de tantos outros revolucionários. Os governistas de então, eram pouquíssimos nesta ocasião e foram desaparecendo com o correr dos tempos.

O Tenente Amâncio Nunes, do Tiro de Guerra 45, convocara os seus  atiradores e formou-se uma coluna de voluntários, sob o nome de "Coluna Louca", cujas inscrições se faziam no Paço Municipal, na rua Santo Antonio, sede do Governo Revolucionário.

O Diário de Garanhuns, na edição de 7 de outubro de 1930, publicava a seguinte proclamação:

"MOCIDADE!

A Pátria que tem o sagrado direito de poder tudo exigir dos seus filhos, vos chama ao cumprimento do mais sagrado dever: LIBERTÁ-LA!

A mocidade de Pernambuco, na capital, vem de dar o mais belos dos exemplos.

Confundindo-se no Caqui do exército de Juarez Távora, irmanada com os soldados da Liberdade, combateram a caterva que nos degradava.

Pois bem, Garanhuns, a cidade ufania deste Estado, não se pode eximir da obrigação de concorrer com o seu contingente para o exército.

Para o exército que viu brilhar no uniforme de Siqueira Campos, do exército que sob o comando de Luís Carlos Prestes, fez o mais arrojado feito de nossas armas invencidas. Ela chama!

Nesta cidade no cartório do cidadão Mário Lira, se acha aberto o  alistamento de um batalhão patriótico que se pretende organizar!

Alistai-vos, mocidade! 

É a Pátria quem  ordena, porque ela se quer salvar do abismo em que  a quiseram lançar Washington Luís e seus sequazes!

Este batalhão, nesta cidade, ficará aguardando ordens dos invictos Capitães que levaram o Recife, de Frei Caneca, à glória!

Um novo sol ilumina, hoje, o nosso Brasil.

Por ela tudo, até a nossa vida.

Alistai-vos mocidade, e dai prova de acendrado amor cívico e nítida compreensão dos nossos deveres!"

A Coluna foi crescendo, e todas as noites na Praça João Pessoa, ex-Sérgio Loreto, os comícios continuavam, ao som dos Hinos de João Pessoa e da Aliança Liberal, com a música do frevo do Clube Vassourinhas. A letra era assim:

HINO DA "ALIANÇA LIBERAL"

(Com a música de "A Vassourinha")

I

Os dezessete feitores (bis)

Na República ainda estão

Mas no primeiro de março (bis)

Todos eles cairão.


Côro

Salvai! Salvai!

Gaúchos e Mineiros

Paraibanos, a aliança liberal

Quarenta milhões de brasileiros

De um jugo, despótico e brutal.

Salvai! Salvai!

A aliança liberal.


II

Presidente João Pessoa

Do Brasil é o coração

O teu nome dentro dele

Se houve a cada pulsação


III

A vitória da aliança

É a vitória da nação

Ou se vence pelas urnas

Ou pela REVOLUÇÃO.


IV

Em São Paulo e na Bahia

Eles não têm votação

Só se fala no Getúlio

Só tem votos pro João


V

Se as fraudes do Governo

Estragarem a eleição

No obelisco da avenida

os cavalos estarão


VI

Não tem fim o pesadelo

De Julinho VAZANTÃO

Lança, e patas de cavalos

Não é brincadeira não.


VII

General Flores da Cunha

Você mesmo é um bichão

Mas João Neves, e o Luzardo

Quando falam treme o chão.

Além dos poetas de cordel, enaltecendo os feitos revolucionários, também Nelson Ferreira, lançava com êxito a sua marchinha de Carnaval, "A canoa virou", cujos versos principais eram:

A canoa virou" Seu Zé

Seu Estácio fugiu, pois é

O beicinho do "beiçola", Seu Zé

Ninguém mais, ninguém viu.

Por vários dias, a Revolução em nossa cidade era animada pelos comícios na Praça João Pessoa, ex-Sérgio Loreto. No meu tempo costumava se denominar de "meeting" e não comício. Os discursos inflamados e as poses estudadas de vários oradores populares, ou não, ao lado da chegada dos primeiros contingentes de tropas regulares sob o comando de  Juraci Magalhães e João Facó, tornaram Garanhuns no eixo central dos  Revolucionários, que demandavam por via terrestre ao Rio de Janeiro.

Juarez Távora, chefe Nacional da Revolução no Norte do Brasil, comissionava Mário Lira, no posto de Capitão Revolução e Lima Cavalcanti, Interventor Federal da Revolução em Pernambuco, nomeava também Mário Lira para a Prefeitura de Garanhuns. Por este motivo, Mário Lira, conduziu a "Coluna Louca", até Alagoas, dali voltando para assumir a Prefeitura.

Exaltando as suas qualidades de homem público, fiel aos compromissos que assumira com o povo de Garanhuns. O "Diário", na sua edição de 16 de outubro de 1930, publicava o seguinte:

"MÁRIO LIRA"

"Por informação fidedigna, sabemos que o general Juarez Távora, ilustre Chefe Militar da Revolução no Norte do Brasil, promoveu no posto de 2º Tenente do Exército, o nosso distinto amigo Mário Lira, diretor proprietário desta folha, sendo o mesmo em seguida, elevado ao posto de Capitão das Forças Revolucionárias.

Também o Sr. Dr. Governador do Estado, por ato de anteontem nomeou-o prefeito deste município. Foram atos de justiça, esses, pois Mário Lira foi, sempre, um lutador incansável e destemido da Revolução que vem saneando os costumes políticos, dessa oligarquia pobre que  nos tem infelicitado.

Caráter ilibado, desassombrado, leal, honesto, patriota, amigo dedicado, Mário Lira soube sempre, se impor a admiração de Garanhuns que  tem nele um perfeito representante dos seus ideais libertários, sendo  olhado com admiração até pelos seus próprios adversários.

Nós, que sempre fomos avessos a elogios, não podemos deixar de  passar sem registro especial esses atos do General Távora e Dr. Carlos de  Lima Cavalcanti, premiando os que possuem verdadeiro mérito.

Garanhuns, pois, está de parabéns e os seus munícipes cheios de  delirante alegria, esperando o regresso do seu invicto governador da cidade para estreitá-la num amplexo de sincera amizade".

Mais tarde, deixando a Prefeitura, Mário Lira volta ao seu Cartório. Foi eleito deputado estadual e residindo no Recife, ao deixar a Assembleia Legislativa, ocupou cargos de relevo no Estado e na Prefeitura do Recife.

Em verdade, Mário Lira, foi um autêntico, com letras grande. Jamais se exaltou no poder. Era o mesmo homem simples e correto que conheci, quando acompanhava meu pai ao seu cartório. Era sempre o defensor interessado da coisa pública. Despido de honrarias pessoas. Assim foi até o término de sua vida. leal, correto e amigo. (Garanhuns do Meu Tempo | Alfredo Vieira | Transcrito do Jornal O Monitor de 1982).

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