sexta-feira, 13 de maio de 2022

História de Garanhuns

O bom cronista que é José Francisco de Souza, dentro do manancial dos seus escritos, certa época andou publicando neste jornal uma série que falava dos tipos populares de Garanhuns. Parece-me, se não me falha a memória, que intitulada "Vultos das Ruas". Não estou bem certo. Em todo caso, com ou sem esta titulação, o grande intelectual deleitou a cidade com a narrativa, escrita em bom português - puro e castiço -, que tem se constituído a marca da sua  magistral produção literária.

Não seu, não lembro se na séria do cronista, ele tinha referido-se ao vulto de "Seu Louro" (foto) - apelido com tratávamos o porteiro do Ginásio, que o Padre Adelmar admitira e cujo nome de batismo era Alfredo. Com o rosto enrugado, corpo cansado pelo peso dos anos, andar cambaleante (daí a origem do apelido, por  parecer aos alunos um andar de  papagaio), o velho e bom porteiro comeu da banda podre com algazarra que fazíamos, chamando-o aos gritos e anarquicamente: "Seu Louro, Seu Louro, Seu Louro-ô-ô-ô..." E Alfredo ensurdecido e fulo da vida, a dizer-nos impropérios, e, concluído com a ameaça: "Vou chamar  o padre, vou chamar o padre, vou chamar o padre..." Ai todos nós corríamos em  debandada. Porque com o Padre Adelmar ninguém era besta de encarar, de ser pegado em flagrante, fazendo anarquias e molecagem!

A nossa algazarra só tinha lugar à saída do Ginásio, quando, ainda em forma, as nossas professoras e os nossos professores, de cada classe, dava a ordem de  debandar. Tínhamos também a fiscalização do censor (bedel) Manoel Teles, que,  à época imprimia-os grande respeito. Então, era na saída, na debandada, que os  anarquistas tiravam a pele, infernizando a vida de Alfredo, o velho e bondoso porteiro - "Seu Louro, Seu Louro, Seu Louro-ô-ô-ô..."

Nas aulas de civilidade, semanais, que o Padre Adelmar nos dava no ambiente solene da velha capela, onde tivera sido o  Seminário Menor, recebíamos todos, sem  exclusão, as advertências severas do nosso eterno Diretor, corríamos até o risco de sermos suspensos, se, novamente, aquela algazarra da saída continuasse sendo feita com o porteiro. Na hora, pensávamos com nós mesmos, nunca mais de agora em diante iremos anarquizar, nunca mais iremos gritar "Seu Louro, Seu Louro, Seu Louro-ô-ô-ô..." Mas aquele compromisso, e boa intensão somente ficava válida na hora, porque, no mesmo dia, à saída, continuávamos infernizando a vida do  bom homem Alfredo.

Brincadeiras de mau gosto, hoje medito já na minha terceira idade, aquelas em que nos divertíamos à custa de um porteiro, homem idoso e bom, que deveria ser alvo da nossa consideração e merecer todo o nosso respeito. Depois de tanto tempo decorrido - como penso, já tiveram oportunidade de fazer os meus  contemporâneos -, peço desculpas ao Padre, e, sobretudo, à Alfredo que já deve estar recebendo de Deus as benesses dedicadas aos bons espíritos.

Desculpas tardias, dirão alguns, mas, quantas vezes, já adultos e homens formados, tardiamente nos arrependemos de alguns atos cometido, e, com bastante egoísmo e falta de humildade, temos vergonha de pedir desculpas no reparo a uma  atitude, a um erro, a um posicionamento que melindrou e/ou mesmo prejudicou um dos nossos semelhantes?!!! Que cada um possa responder a si mesmo.

*Rinaldo Souto Maior | Jornalista e historiador | São Paulo, 20 de Julho de 1985 | Crônica transcrita do jornal O Monitor.

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