terça-feira, 10 de maio de 2022

Lições do apocalipse pelo ponto de vista de um zumbi

The Walking Dead, A Noite dos Mortos-Vivos e Resident Evil são produções que moldaram a imagem popular das criaturas conhecidas como zumbis. Focadas na luta por sobrevivência, estas obras ignoram uma pergunta que ecoa há muito tempo sem resposta: afinal, o que se passa na cabeça de um moribundo?

O jovem escritor Diego Rates desvenda este mistério em As Últimas Memórias de um Morto-Vivo. O livro apresenta o dia a dia do zumbi Joe em sua jornada de autoconhecimento repleta de humor e situações absurdas durante o apocalipse.

Pensada como uma homenagem ao “morto-vivo” que existe em cada pessoa, a história conta com uma trama envolvente e um narrador que, apesar de meio-morto, é repleto de carisma. Lutando contra a tentação de se alimentar de carne humana para evitar a dependência, Joe desenvolve o hábito de escrever sobre suas lembranças na intenção de restaurar a memória perdida e compreender os eventos que culminaram com sua conversão em um zumbi pensante.

"Devido ao meu excelente bom humor nesse dia em específico, irei expor um pouco mais de minha intimidade com você. E estar de bom humor, dadas todas as circunstâncias, pode ser considerado um grande evento. Existem pouquíssimos dias bons no fim do mundo. Porém aconselho que você não vá se sentindo muito próximo de mim. Se você, por acaso, ou descuido, chegar perto demais, posso involuntariamente morder o seu nariz."

(As Últimas Memórias de um Morto-Vivo, pg. 7)

Em As Últimas Memórias de um Morto-Vivo, Rates cria um universo palpável e, em certa medida, assombroso, que contextualiza as mudanças sociais e ambientais causadas pelo apocalipse. O sumiço do brilho das estrelas, o levante de bestas selvagens, a morte de todas as corujas e a criação de uma hierarquia zumbi são alguns dos efeitos devastadores retratados na obra.

Ao longo das páginas, o zumbi Joe quebra a quarta parede em diversos momentos para conversar diretamente com o leitor. Com tiradas ácidas sobre a vida e a morte, ele instiga reflexões relacionadas aos desejos normalizados no “mundo dos vivos” que perdem o sentido quando as regras sociais e padrões de comportamento são aniquilados e você passa para o “outro lado”.

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