sexta-feira, 6 de maio de 2022

Mosaico garanhuense

Lauro Cysneiros (foto)

Rememorar os idos de quase meio século de  afastamento das luzes daquele sol que ornamentava a terra dos requintes daqueles flocos lunares que engalanavam a vastidão celeste, e cultivar saudades no  esborcinado jardim de quem de saudades morre... Rebuscar a imagem desse passado que jamais se olvida, e induzir reminiscências ao casarão sombrio de um  coração que de reminiscências dificilmente vive... recordar as fulgidas auroras daqueles tempos de  longínqua data, é aprofundar a solidão patética de  um pobre espírito que de profunda solidão fenece... Recapitular, finalmente, as memoráveis noites estrelejantes daqueles idos remotos, e adstringir a memória a abstração desse nada de cuja lembrança nunca mais esquece...

Em 27 de abril de 1942, em uma tarde nebulosa e fria, saltava eu na gare da Estação Ferroviária  desta cidade, aonde vinha para exercer o cargo de Secretário da Prefeitura de Garanhuns. Era esta situada, aquela época, em um antiguíssimo e inadequado casarão localizado em frente a Agência dos Correios quando me  houvera pisar, pela primeira vez, o solo amado daquela Garanhuns de remoto passado... daquela Garanhuns de apenas meio século de emancipação política... daquela verdadeira Garanhuns de Simôa Gomes, porque mais radicada a este plano de origem, quando mais vinculada aos seus contemporâneos em vida, porque mais adstrita aos seus primitivos construtores - enquanto, assim, mais provinciana, quão mais  original se manifestava, erguida as primorosas fraldas do Magano, nessa considerável altitude de mais de mil metros acima do nível do oceano.

E, dai, a minha primeira residência, na Rua São Miguel, nº 74, naquele inesquecível bairro da Boa Vista de antanho... daquela imperecível Boa Vista de Manoel Justino de Lima, João Leitão de Albuquerque, Professor Miguel de Oliveira, Manoel Sebastião dos Santos - e aonde não faltava ainda a agradável presença de Pedro Barbosa Frias e de João Alves Cordeiro, - e tantas outras boníssimas criaturas, afinal, que hoje, dormem o sono da eternidade, a isolação funérea do Cemitério São Miguel, as adjacências daquele bairro.

Em síntese, um remanescente daqueles idos poderá confirmar a veracidade destas linhas. O dileto amigo, Acadêmico e jornalista Argemiro Lima.

Crônica transcrita do jornal "O GRÊMIO" de 16 de Maio de 1981.

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