terça-feira, 3 de maio de 2022

Os alagoanos em Garanhuns


Acredito que o Colégio Santa Sofia, o Ginásio Diocesano e o Colégio 15 de Novembro, foram os responsáveis pela maior afluência de "Alagoanos" a Garanhuns.

Várias eram as famílias que visitavam a nossa cidade trazendo os filhos e parentes para os nossos colégios, utilizando os trens da Great Western, que faziam baldeação em Glicério, ou as estradas carroçáveis através de Águas Belas e Bom Conselho, dada a situação geográfica desses municípios com o vizinho Estado das Alagoas.

Ilustres alagoanos se firmaram em Garanhuns, vivendo com o  seu povo e sofrendo com ele.

Não obtive informação de que o Mons. Afonso Pequeno, pároco de Garanhuns, tivesse nascido nas terras das Alagoas, mas o seu primo e sucessor Cônego Benígno Lira, vinha dos Lira, da Usina Serra Grande, do  município de São José de Laje. Admito assim, pelos laços de família que o Mons. Afonso Pequeno, era também das Alagoas. Fundara o Colégio Santa Sofia, e o seu sucessor Cônego Benígno Lira, juntamente com o cearense Padre José Antero, fundaram o Ginásio de Garanhuns. Era um homem ligado totalmente a sua nova terra. Destemido e afoito, apesar de  sua brandura, rezam as crônicas da época, que debaixo dos tiroteios na  "Hecatombe de Garanhuns", chegou a ministrar os últimos sacramentos de sua igreja aos que foram trucidados inocentemente na Cadeia Pública, cumprindo o seu dever de pároco. Dono de uma inteligência aprimorada e cultor das letras, escreveu dois livros "Almas Simples" e "Rosas de Todo Ano".

Quando optou pela Diocese de Olinda, em face da criação da Diocese de Garanhuns, sempre voltava a cidade que tinha escolhido para seu berço, visitando o Ginásio que havia fundado e revendo as velhas amizades. No Recife, foi pároco da Matriz de Santo Antonio e se preocupava vivamente com os padres que vinham a nossa capital e ficavam mal hospedados em pensões e, às vezes, em casas familiares. Fundou e manteve à sua custa, durante toda a sua vida o "Lar Sacerdotal", ainda hoje existente à  Avenida Conde da Boa Vista. Vítima de um doente mental, foi  assassinado em Brejo da Madre de Deus, quando ali se encontrava em período de repouso, em agosto de 1941.

Outro sacerdote de Alagoas, da família Diegues, de Maceió, também se radicou em Garanhuns, o Padre Manuel Diegues Neto. Muito jovem, em  1927, logo após a sua ordenação, foi designado pelo Bispo D. João Tavares de Moura, para as funções de diretor do Ginásio de Garanhuns, funções que acumulava com a de Secretário do Bispado. Capelão do Colégio Santa Sofia, seu professor de francês e também do Ginásio de Garanhuns, o alagoano Padre Manuel Diegues Neto, ensinou a várias gerações que acorreram, aos seus colégios, durante vários anos.

Muitos outros alagoanos foram chegando e ficando em nossa centenária cidade, atraídos pelo seu clima e pela hospitalidade de sua gente. Mais tarde, foram chegando e ali se radicando, Eurico Pontes de Lira, médico, professor do Diocesano, também do clã dos "Lira da Usina Serra Grande", Lessa de Azevedo, também médico, integrante do Sanatório Tavares Correia, professor de História Natural do Diocesano e tantos outros que vinham a passeio ou fazer temporadas de descanso, usando do seu clima ameno, antes mesmo de Garanhuns, ter sido "descoberta" por Tavares Correia (conforme salienta João Domingos da Fonseca), médico sergipano, fundador do Instituto Médico-Cirúrgico de Garanhuns, depois transformado em Sanatório Tavares Correia.

Era comum nos últimos domingos de cada mês, uma maior confraternização entre os alunos internos do Diocesano e as alunas do Santa Sofia, nas matinês da AGA e do Sport e quando isso não era possível, em uma das residências de nossa cidade em que houvesse um piano.

Raquel Grossi Niezi, neta da Sra. Raquel Grossi, exímia pianista era sempre convocada para estas reuniões, onde predominavam as jovens e  os jovens das Alagoas, em franca mistura com os garanhuenses. E em verdade, muito casamento saiu, em decorrência dessas reuniões dançantes, ou simples "bate-papos" familiares.

Destaco entre outros, pela aproximação que mantive com alagoanos importantes, o ex-governador Fernandes Lima e o advogado Baltazar Mendonça, ferrenhos adversários políticos.

O ex-governador Fernandes Lima, costumava se hospedar no Hotel Mota (foto), situado à Praça D. Moura, logo à descida da Estação de Great Western, junto à residência de José de Almeida e posteriormente, Souto Filho. Costumava visitá-lo sempre que chegava a nossa cidade. O advogado Baltazar Mendonça, ex-prefeito de Maceió, deputado em várias legislaturas e renomado advogado de formação puramente alagoana, era pernambucano de nascimento. Nascera em Quipapá e passara grande tempo de sua adolescência em Palmeira, distrito de Canhotinho, que se chamaria depois Palmeirina, quando desmembrada se tornou município. A revelação de seu nascimento pernambucano me foi feita recentemente pelo seu filho, o advogado Fernando Augusto de Mendonça, ex-Procurador da Justiça do Estado e ainda hoje advogado militante, quando quis confirmar as atividades do seu ilustre genitor em terras de Alagoas.

O político Baltazar Mendonça, costumava passar temporadas em Garanhuns, tendo em uma das últimas vezes, alugado casa à Avenida 13 de Maio, onde fazíamos ponto habitual quando em demanda do Ginásio.

As nossas conversas eram mais íntimas com Rui, um dos mais novos, quase de  minha idade, companheiro permanente dos passeios ao Parque dos Eucaliptos e às chegadas do trem da Great Western; Fernando, o filho mais  velho, já era importante. Destacado prócer político da Revolução de  1930, assumiu a chefia de Gabinete de Desembargador Adolfo Ciríaco, quando este foi designado Chefe de Polícia de Pernambuco, logo após a vitória da Revolução de 1930, pelo seu chefe civil, Carlos de Lima Cavalcanti.

Relembro as nossas conversas com o velho político Baltazar Mendonça, o seu entusiasmo, a sua acuidade política e o interesse pela sua terra das Alagoas. Não deixou herdeiros políticos diretos. Fernando Augusto Mendonça, depois de algumas decepções nos caminhos difíceis da  UDN (esta UDN fatal, como a chamava o jornalista Anibal Fernandes) firmou-se no Ministério Público e hoje, advogado brilhante vive no Recife. Gentil Mendonça, deixa também o Ministério Público e troca o júri pela cátedra de Direito do Trabalho da nossa Faculdade de Direito.

Os "alagoanos", continuam cada vez mais sólidos em Garanhuns. Hoje, estradas asfaltadas, tornam as cidades mais próximas e encurtam as  distâncias. Paulo Tavares Correia, um dos dirigentes do Sanatório Tavares Correia, informa-me que o maior contingente de nordestino que vivem nos seus hotéis em Garanhuns, são na realidade das Terras das Alagoas. Em verdade, entre Alagoas e Garanhuns, não há fronteiras. (Fonte: Alfredo Vieira | Garanhuns do Meu Tempo | Transcrito do jornal O Monitor | 1981).

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