sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Os sábados em Garanhuns na minha infância

Anchieta Gueiros - História de Garanhuns e do Agreste

Marcílio Reinaux*

Os dias de sábado em Garanhuns, na minha infância eram muitíssimo esperados. Alias parece até que - nós crianças - vivíamos a semana inteira à espera dos sábados. Ele era sempre riquíssimo em emoções e tudo mais. Acordar cedo era a primeira preocupação, para ir à feira com quem que  fosse logo cedinho:  Tereza, Julieta ou Linda, qualquer das três empregadas, ou mesmo com Dona Francisquinha, minha mãe. As vezes ela não ia  e mandava uma das "meninas" fazer a feira. Geralmente era Alcione quem ia. Muito cuidadosa com esse assunto,  conhecendo meio mundo de gente na feira, onde tinha os fregueses (ela mesmo uma grande freguesa) da maioria dos feirantes, era  quem dava melhor conta do recado. Economizava e com as amizades comprava do bom e do melhor. Tinha os seus feirantes preferidos: Ovos, só de capoeira de gema cor amarela escura (ainda não havia ovos, de gema branca, "fabricados" nas granjas, aliás, nem tinha granja). Grandes, bonitos, encomendados e comprados com o Seu Quinca, que vinha da cidadezinha de Capoeiras com caçuás cheio de galinhas  (chamadas genericamente de "Galinha de Capoeira") gordas e pesadas. Ovos numa cesta de arame trançado. Uns vinte ou trinta, separados para a "Dona Cione", dizia ele. Carne de  boi, coxão de porco, pernil de bode, toucinho, linguiça e coisas dessa linha, eram compradas na tolda de Armando, o que veio a  ser noivo e depois marido da Tereza, nossa empregada. Não era  sem razão que Tereza sempre queria ir fazer a feira, porque dava "um dedo de prosa" com o Armando. O perigo era demorar e, quem faria o almoço? Julieta cuidava das crianças e a Linda da arrumação. Havia uma quarta, a Judite, mas que não chegou a trabalhar para nós.

Ir à feira cedinho, não empatava ir outras vezes mais durante o dia. Era só ter chance e lá seguia eu para feira. Gostava de tudo: ver os cavalos, carro-de-boi, bodes, carneiros, aves, os passarinhos (principalmente). A pequena ruela atrás da minha casa, nos sábados, virava "estacionamento" de carros-de-boi e de cavalos. Era bosta de bicho para todo lado. Estes animais e seus  carros, não  podiam descer até a Avenida Santo Antônio, iam parando nas proximidades. Daí o grande movimento. Pediam água, descansavam no nosso quintal, usavam o sanitário dos fundos, cujo sifão era aquele tipo francês (chamado Cambronne) fazendo-se cocô acocorado. O cheiro forte do cigarro de palha tomava conta do ambiente. Havia uns mais achegados que comiam alguma coisa que Tereza dava. "É um agrado!", exclamava ela, completando: "Seu Tóta todo sábado trás um jerimum pra nós!".

Na feira eu passava primeiro, invariavelmente na "Agência Reinaux", a loja do meu pai, para vê-lo, ver o movimento, dizer "alô papai" e, se possível receber dele uma moeda de 100 réis, ou  até 200 réis. Era uma festa. Dinheiro para deslanchar algumas guloseimas na feira e ou mesmo pequenos brinquedos de madeira, ou bonequinho de barro, sempre preferidos e desejados. Passar na casa da Madrinha Beatriz era muito bom, como já me referi. Tomar caldo-de-cana com pão doce, pirulitos e alfimin, este  sempre em destaque. Alguém na feira fazia alfimin com formas de  bonecos, animais. Bem branquinhos e deliciosos. Passava no toldo do Tio Chiquinho, marido de Tia Satú, irmã  mais velha da minha mãe Francisquinha. Vinha do primeiro matrimônio da minha avó. A tolda era de "secos e molhados". Um comércio muito variado: charque, querosene Jacaré, bacalhau importado, açúcar preto, rapadura, coloral, arame farpado, óleo de linhaça, cordas de caroá, feijão mulatinho, feijão preto, farinha grossa e fina com e sem goma, arroz, tudo em saco, sal grosso. Mas havia sempre um saco de "carambas" (bolas de açúcar endurecido) muito gostosas. O tio Chiquinho, me dava uma, vez por outra. Por trás da tolda, uma  caminhonete Ford 1929, servia de almoxarifado da grande  barraca, trazia e levava as mercadorias.

Passar na feira de Passarinho, ver as aves, ver os bodes, carneiros e assistir um pouquinho os sempre curiosos espetáculos improvisados do "Homem da Cobra", e do Pracista da Macaquinha, vendendo remédios para os calos. Claro que o macaquinha, chamada Violeta, era apenas o atrativo e era o que me interessava. Remédios para calos, não me interessavam, como era o óbvio. A Macaquinha era muito esperta, vestida com saia e blusa e suspensório, presa por uma correntinha. O pracista dizia: "Violeta, pula peste". E a dita pulava dando cambalhotas no ar. As  vezes ele dava um comando na corrente e a macaquinha, dava duas, três cambalhotas no ar, seguidamente... Lembro-me também de um pracista, dito "Mágico", fazendo mágicas para atrair compradores para o  seu remédio para verme. Tinha uma tábua, assentada num caixote, com um pano em cima, cheia de vidros com vermes. Os vidros eram etiquetados com os nomes dos respectivos verminados. "Olha aqui minha gente", exclamava pegando um vidro: "Ele botou 172 lumbriga, depois que tomou este remédio. Quem quiser pode comprar, se não botar lumbriga, eu devolvo o dinheiro!!!". Para cada um dos vidros ele contava histórias fantásticas.

Olhar com tristeza e até com medo do ceguinho e dos esmoleres, feios, sujos, fedorentos, era realidade que anunciava sempre a beleza do sábado. Uma pena, tanta gente sofrida. Cantorias, gemidos, reclamos, pedidos, implorando e invocando o nome de Deus. Percorrer bem depressa na subida para a minha rua, a calçada com  os pedintes, era exercício necessário. As vezes deixava cair um  tostão, ouvindo-o  tilintar na bacia (por ironia do destino, sempre uma bacia de queijo do reino) de um dos pedintes. Quando isso acontecia, seguia com ar feliz, com a sensação de "perdão dos  pecados", por fazer um bem. Chegando em casa brincar. Almoçar, brincar, e a partir das três da tarde ou quatro, ia ver na rua de trás a saída dos carro-de-boi, com os carreiros, tocando os bois puxando os carros carregados de sacos e caixas. Uma, duas mulheres e ou crianças acomodados sobre a carga e lá iam os carros gemendo. Parecia uma despedida, o soar dos carros-de-boi. Mas apenas diziam: "Inté sábado, menino, se Deus quizé tamo de vorta!". E voltavam...

Com eles e com tudo mais, o meu sábado muito esperado durante toda a semana e também voltava. Chegava sempre com  prenúncios de muita emoção. E o meu coração batia apressadamente para destrinchar e viver tanta emoção em um sábado em Garanhuns.

*Advogado, escritor, pintor e historiador / Garanhuns a Enevoada Pérola Fugidia / Fevereiro de 1999.

Foto: A grande feira de Garanhuns na Avenida Santo Antônio, década  1940/50.

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